quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A arte de adorar

Rory Noland, diretor do ministério Coração do Artista, defende que o talento deve caminhar lado a lado com a espiritualidade.
Por Volney Faustini





Em sua quarta viagem ao Brasil, Rory Noland já sente-se à vontade por aqui. Sinal disso é que encontrou a reportagem de CRISTIANISMO HOJE vestindo jeans e tênis, no meio de uma maratona de eventos e congressos de que veio participar em São Paulo. O assunto da conversa, evidentemente, seria arte e adoração, assuntos nos quais ele é uma espécie de PhD sem diploma. E nem precisa. Graduado pelo Chicago Musical College, da Universidade de Roosevelt, Noland é músico, compositor, palestrante, conselheiro e pastor nos Estados Unidos. Durante vinte anos, ao lado do pastor Bill Hybels, capitaneou as atividades musicais na Willow Creek Community Church, no Illinois, igreja que é considerada referência em todo o mundo. Foi ele que ajudou a introduzir práticas e comportamentos que se tornaram referência na atividade musical das igrejas. Inclusive, e principalmente, a preocupação com o caráter e a espiritualidade do artista cristão. 
Atualmente, Rory Noland dirige o ministério Hearth of the Artist (Coração do Artista). Uma de suas principais atividades ministeriais é a organização de retiros temáticos cujo objetivo, entre outros, é contornar o aparente paradoxo entre fé e as artes. “A arte traz luz, criatividade, energia, comunicando de diferentes maneiras o que a palavra falada não consegue transmitir”, defende o pastor. É verdade que elas vêm quebrando barreiras e ganhando espaço no meio evangélico. Permanecem, contudo, alguns pudores, inclusive por causa de certas particularidades dos artistas, como a vaidade. Mas Noland quer mostrar que é perfeitamente possível ao artista cristão dar vazão ao seu talento e, ao mesmo tempo, manter em alta a sua comunhão com Deus. É isso que ele diz em seus livros, como O coração do artista e O artista adorador (Editora W4). “O artista está mais na vitrine do que as pessoas que exercem outros ministérios na igreja”, comenta. “Por isso, é preciso dar mais atenção à alma do que à arte”, aconselha.

CRISTIANISMO HOJE – Ultimamente, as igrejas evangélicas estão mais abertas a manifestações artísticas.  As resistências do passado foram contornadas?
RORY NOLAND – Os pastores e os crentes em geral estão mais abertos, sim. Eles perceberam o quão válido é usar as artes para levar as pessoas às igrejas e também como expressão de louvor ao Senhor. Contudo, ainda há muita resistência. Eu diria então aos pastores: não tenham medo de abrir a sua igreja para mais artistas. Vai ser desafiador, às vezes? Sim. O temperamento do artista algumas vezes é complicado? Sim. Mas, trabalhar juntos pelo Reino de Deus é possível, e essa unidade potencializa os ministérios de cada um. Há uma riqueza quando os pastores e os artistas se juntam. Deve-se deixar para trás qualquer tipo de bloqueio ou estereótipo. A arte traz luz, criatividade, energia e novidade para o culto, comunicando de diferentes maneiras o que a palavra falada não consegue transmitir. É preciso levar em conta que as artes não falam só ao coração, mas à mente, também.

De que maneira o crente pode se utilizar das artes?
As artes podem ser usadas para muito mais do que adoração e evangelismo. Elas podem ser usadas, por exemplo, para ensinar. Tome por exemplo os hinos Wesley e outros compositores cristãos. Eles são ricos em doutrinas. Os vitrais nas janelas dos templos, com os ícones desenhados representando histórias bíblicas, também trazem verdades teológicas. A apreciação pura e simples das artes como forma de se conectar com o sagrado às vezes acontece, e às vezes, não. Podemos supor que apreciar a arte pode nos levar para mais perto do Senhor, desde que estejamos abertos para tal. As artes sempre lidam com os temas reais da vida, de maneira que ultrapassa a mera superficialidade – e, portanto, levanta questões espirituais cujas respostas só serão encontradas em Jesus Cristo. Então, Deus pode usar as artes de maneira poderosa para o seu Reino.

Quais devem ser as características perseguidas pelo artista cristão?
Primeiramente, a humildade. Em Filipenses 2.13, lemos que nada deve ser feito por alguém por partidarismo ou interesse próprio, mas sim, por humildade, “considerando os outros como superiores a si mesmo”. O foco deve ser servir. João Batista disse a respeito de Jesus: “Importa que eu diminua e que ele cresça”. Esse é o tipo de atitude que o artista cristão deve ter em tudo o que faz. No livro de Neemias, vemos que os músicos eram encarregados também da manutenção na casa do Senhor. Havia uma razão para isso: era importante que eles aprendessem a humildade através do serviço aos outros. A ideia da humildade e do serviço ao próximo é encontrada o tempo todo na Palavra de Deus.

O senhor já teve dificuldades nessa área?
Certa vez, quando eu tinha 21 anos de idade, alguém chegou para mim e me disse: “Você é muito sensível. Estamos quase sempre como que pisando em ovos quando você está com a gente”. Eu sequer suspeitava disso, mas tinha mesmo um temperamento difícil e até chegava a ser agressivo quando falava. Mas fui confrontado e tive a oportunidade de enxergar minhas falhas e melhorar. Então, fui ao grupo, pedi perdão e disse com sinceridade que não queria mais ser daquele jeito. Dou graças a Deus porque aquela pessoa me considerou o bastante e me amou o suficiente para me confrontar. A humildade implica estar aberto ao feedback de outras pessoas. Isso amadurece o caráter.  Um texto do livro de Provérbios diz que “leais são as feridas de um amigo”. Nosso caráter tem que sempre ser testado. Na sua primeira Epístola a Timóteo, Paulo recomenda a seu discípulo para examinar a si mesmo. E devemos sempre fazer isso diante das Escrituras.

O senhor, juntamente com o pastor Bill Hybels, é um dos fundadores da famosa igreja de Willow Creek. Por quanto tempo o senhor esteve lá e o que fazia naquele ministério?
Eu estive no ministério de Willow Creek por mais de 20 anos e tive muitas atividades ali. Minha responsabilidade central era a de dar direção ao ministério de música, liderar a equipe envolvida e ajudar a articular a visão do ministério nesta área. Como diretor de música, eu dirigia o departamento, e à medida em que esse setor se tornou maior, assim como o número de pessoas, cada vez mais eu ficava nos bastidores e ocupava menos o palco como músico.

Quais são, a seu ver, os principais fatores que fizeram de Willow Creek uma megaigreja de influência mundial?
No início, éramos apenas um grupo de jovens apaixonados pelo evangelismo, Jamais sonhamos que o ministério teria um dia a influência que de fato hoje tem. Então, antes de mais nada, o principal fator foi que Deus nos abençoou. A obra sempre foi dele, e tínhamos clara noção disso. Também é preciso destacar que uma das razões que me faz apontar para o sucesso de Willow Creek é que usamos muito as artes. Naqueles dias, isso foi algo realmente bastante inovador.

Como essas expressões de encaixavam na liturgia?
Tudo era feito em parceria com a mensagem, ou seja, as expressões artísticas apontavam para o conteúdo do sermão que seria pregado. Apesar de gostarmos da variedade, basicamente, na primeira meia hora, tínhamos exibições de música, arte e drama – e boa parte disso estava voltado em construir o tema do dia. Depois, Bill subia ao palco e trazia a mensagem. Tudo dependia do objetivo da reunião: evangelismo, santidade, comunhão, oração. Durante a semana, os cultos eram voltados aos crentes. Já nos fins de semana, nosso objetivo era alcançar pessoas com o Evangelho.

Essa diferença de público interferia na programação?
Ah, sim. No caso da música, por exemplo – aos domingos, como havia a presença de muitas pessoas não evangélicas, tínhamos uma música mais contemporânea, com diversos ritmos. Isso envolvia o visitante, empolgando sobretudo os mais jovens. Já nos cultos mais reservados, tocávamos muitos hinos tradicionais.


Um grupo de jovens tocando hinos tradicionais?
Mas as composições tradicionais são fora de série! Os hinos clássicos têm teologia saudável, forte vínculo com as Escrituras e foram compostos visando a abordar questões importantíssimas para o ser humano. Eles não são daquele tipo “eu”, “mim”, “meu”; ao contrário, trazem conteúdos ricos e encorajadores à fé. Definitivamente, essas composições perduram no tempo.

Artistas têm disciplina?
É, parece que a maioria das pessoas pensa o contrário. Mas, se pensarmos bem, é necessário muita disciplina para que alguém chegue a ser um artista. Praticar, ensaiar, tudo isso consome bastante tempo e restringe o exercício de outras atividades. Portanto, não é justo dizer que o artista não tem disciplina.

O perfeccionismo é uma virtude ou um defeito no contexto da arte cristã?
Falo muito sobre a perfeição, contrapondo-a à excelência. Praticamente, todo artista que conheço tem que saber lidar com o perfeccionismo, que é inerente à sua atividade. É isso que nos torna bons artistas – contudo, se a busca pela perfeição ultrapassar determinados limites, o sujeito pode ficar maluco!

Nas igrejas e ministérios, hoje, fala-se muito em louvor e adoração. A ênfase exagerada na perfeição técnica não pode acabar prejudicando a adoração a Deus propriamente dita?
A adoração tem uma função fundamental: a de transformar o crente. Hoje, mais do que nunca, o louvor está sendo dirigido por times de artistas. Muitos deles são graduados em seminários e escolas bíblicas. E o preparo não termina aí – como eles são chamados a liderar o louvor, é claro que há necessidade de dedicação de tempo para ensaios etc. Aqueles que atuam voluntariamente já têm limitações nisso, mas mesmo assim, precisam se preparar espiritualmente. É aí que entra a adoração pessoal. Ora, você não pode liderar outros, a menos que também possua experiência naquilo. Há situações que são bastante próprias na arte cristã. O artista envolvido no trabalho da igreja, por exemplo: muitas vezes, ele vai ter de lidar com a ciumeira, muito mais do que o professor de Escola Dominical. Quer dizer, o artista está mais na vitrine do que as pessoas que exercem outros ministérios na igreja. Esse é um exemplo em que a construção de um caráter verdadeiramente cristão fará a diferença. Nem todos os artistas têm problemas com a vaidade, mas muitos ficam presos a isso.

Receber dinheiro compromete a visão ministerial do serviço?
No que concerne a remunerar artistas – principalmente músicos, que são em maioria na igreja –, depende da situação. Eu, na maioria dos casos, aconselho a não pagar aos voluntários, porque isso solapa o ministério no sentido de trabalho em equipe. Pagar a alguns e não a outros afeta a moral daqueles que nada recebem. É preciso trabalhar de acordo com a realidade da igreja. As igrejas que não remuneram têm normalmente equipes maiores de artistas. No entanto, se a igreja está pedindo a um artista que dedique horas acima e além do que se espera de voluntários, deve-se oferecer um valor, especialmente se é dessa forma que o artista ganha o seu pão diário. Eu conheço alguns artistas que dedicam tempo integral ou parcial, dão horas e horas de serviço à igreja, abrindo mão de outras atividades ou de seu tempo livre, e não recebem um centavo. Isso também é injusto. As igrejas não devem se aproveitar de seus artistas. Um líder sábio cuidará de cada um em sua equipe e os recompensará também materialmente quando os solicita além de determinado limite. Eu já trabalhei com músicos profissionais que também se voluntariavam regularmente na nossa igreja. Como sinal de minha apreciação ao seu desprendimento constante, eu os contratava para tocar em ocasiões especiais, como no Natal ou na Páscoa.

E quando o talento prevalece sobre a espiritualidade?
A igreja caiu nessa armadilha, pois tem se colocado na posição de atender às necessidades e gostos do artista de maneira excessiva. O artista que se coloca – ou é colocado – na posição de prima donnatorna-se um elemento com quem é muito difícil trabalhar, pois não aceita sugestões e nem orientações. Ele vive debaixo da emoção, e embora dê “mancadas” o tempo todo, não sofre disciplina. Acontece que, quando o sujeito é talentoso, temos medo de confrontá-lo, pois pensamos: “E se perdermos essa pessoa, quem vai ocupar o lugar?” Assim, deixamos temos deixado esse tipo de coisa acontecer, o que é péssimo para o ministério e para a igreja.

E como resolver o problema?
A minha regra de ouro é de confrontar essa pessoa. É por isso que o caráter realmente importa. Não aceitaríamos esse tipo de comportamento de pastores ou de nenhum outro líder – então, não devemos aceitar de músicos ou dirigentes de ministérios de arte. E tem outra coisa: caso não haja sentimento de cooperação e genuíno arrependimento no caso de falhas, que se vão! Manter uma pessoa assim no ministério é como deixar um câncer se desenvolver no seio da igreja, especialmente quando trata-se de um líder. Os seguidores absorvem o modelo, e se veem isso acontecendo, vão pensar: “Então, isso é aceito?”. Primeiro, a situação vai afetar o pessoal diretamente envolvido com o ministério, e depois, atingir o restante da igreja.


Que tipo de orientação o senhor daria a cristãos que têm talentos artísticos?
Primeiro, focalize-se na sua arte, na sua escolha. Seja o melhor artista que você pode ser. Seja treinado, obtenha lições, ensaie, dê duro. Não é porque você é cristão que não precisa de dedicação. Coloque o máximo da energia de que você dispõe para tentar ser o melhor artista que você pode ser. E, em segundo lugar, preste atenção às Escrituras e ande com o Senhor. Dê mais atenção à sua alma do que à sua arte – e isso significa entrar na Palavra, ler, orar regularmente, memorizar trechos das Escrituras. Não dependa de seu talento. Enfim, cresça espiritualmente e artisticamente, sem esquecer de submeter-se à liderança de outros

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