quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Famoso cantor gospel fala em favor de diálogo entre cristãos e gays: “Os ensinamentos de Jesus são incongruentes com muito de nossa prática”


Derek Webb não tem o perfil de um evangélico comum, mas espera que um dia venha a ter. Bastante conhecido e querido pelos apreciadores de música cristã, Webb várias vezes tem flertado com a controvérsia desde o início de sua carreira solo, após sair do grupo Caedmon’s Call. Isso ficou acentuado depois do álbumStockholm Syndrome, de   2009,  cuja primeira música a fazer sucesso What Matters More  [O que mais importa], falava abertamente sobre a homofobia na igreja cristã. Nesta entrevista, perguntei a Webb sobre a sua identidade religiosa e como isso influencia seu trabalho e suas posições.
Chris Stedman: Acompanhando a sua carreira, parece-me que você se tornou cada vez mais assertivo ao expressar suas opiniões sobre certas questões sociais. O que há por trás disso?
Derek Webber: Minha esposa e eu somos artistas. Parte da vantagem de ser um artista é que você não apenas pode, mas tem a responsabilidade de pensar muito sobre as coisas e dar sua opinião aos que gostam do seu trabalho. Você pode dar apenas um ponto de partida para questões que nem sempre fazem parte da rotina ou da realidade da maioria das pessoas. Acho que existe muita gente inteligente por aí, mas que simplesmente não tem tempo para pensar sobre algumas destas questões. Fica mais fácil ver as notícias na TV, ler alguns blogs e a partir disso formar sua opinião sobre certas coisas.
Às vezes, as pessoas precisam de um empurrãozinho. Sinto que os artistas podem desempenhar um papel realmente único, aproveitando da vantagem de poder pensar sobre questões que atingem nossa vida e cultura para, em seguida, resumir esses pensamentos em apenas alguns minutos, acrescentar uma melodia – como algo que ajuda o remédio a descer – e dar às pessoas algo para reagir. A partir disso, elas poderão começar a formar suas próprias opiniões.
Qual foi a reação a What Matters More e, de maneira mais ampla, ao conteúdo de Stockholm Syndrome? Você estava preocupado com o risco de tomar partido em uma discussão tão acirrada?
Honestamente, isso já era bastante previsível. [Webber chamou para abrir os seus shows Jenniffer Knapp, cantora evangélica que se declarou homossexual no início do ano] O que realmente não esperava foi a resposta daqueles que administram a porção mercadológica da Igreja, especialmente no que se refere à “questão gay”. O que foi surpreendente, no bom sentido, e me mostrou que escolhi o melhor tipo de problema para abordar – foi a resposta de um grande número de pessoas que realmente estavam lutando espiritualmente com esse assunto.
Elas não sabiam como expressar quem realmente são e crer no que realmente pensavam crer. Durante toda a vida ouviram pessoas lhes dizendo que não podiam ser daquela maneira. Fiquei muito satisfeito por conseguir oferecer um pouco de sanidade mental a um punhado dessas pessoas. Isso fez valer a pena qualquer tipo de julgamento ou mal-entendido que meu álbum poderia gerar.
Pensando sobre  ter medo ou não de uma reação. Bem, levo meu trabalho muito a sério. Ao longo dos anos, tentei criar o hábito de não dar ouvidos às pessoas que me criticam ou me elogiam. A espiritualidade é algo muito misterioso e sinto como se tivesse recebido durante anos várias orientações de Deus sobre como e onde devo investir meu tempo e meu trabalho. É realmente isso o que estou fazendo. Se ao seguir fielmente essas coordenadas e acabar recebendo elogios de um determinado grupo de pessoas, isso é muito bom. Mas não faço nada para agradar os outros, nem fico chateado se perder o apoio de algumas pessoas ao longo do caminho. Prefiro muito mais ser fiel a ser bem-sucedido. Acho que essa é uma diferença real quando vejo como agem alguns profissionais do meio em que vivo.
Como você acha que a comunidade cristã pode construir pontes com a comunidade LGBT?
Pra começar, os cristãos podem parar de fingir que são tão diferentes. Acho que haveria uma mudança imediata na conversa, se todos percebermos como somos semelhantes e como partilhamos de uma linguagem comum. Outra coisa que realmente poderia mudar o diálogo entre a igreja e a comunidade gay – e que precisa desesperadamente mudar – é a resposta da igreja. A igreja passou tantos anos lidando publicamente com a moralidade da questão, de uma maneira que distorce a resposta que creio que Jesus daria. Talvez os cristãos tenham se esquecido, ou talvez nunca souberam, é que a maneira de tratar os gays não deveria mudar.
Quer você seja da opinião que a questão gay é perfeitamente admissível segundo a Bíblia, ou que é totalmente condenável, não importa. Saiba que essa resposta é o amor. Ponto final. É amar e manter os braços abertos, independentemente de sua posição sobre o aspecto moral.
Seu último trabalho, Feedback, é um disco de louvor. No entanto, é bastante  diferente dos discos de adoração, especialmente por ser, na maior parte, instrumental. Como você responde às pessoas que dizem que você “se vendeu”, ou que não é um “cristão de verdade”? E, por outro lado, como responder às pessoas que dizem que você é ” cristão demais” e que deveria “ficar com a sua religião para si”?
Regularmente escuto alguns desses comentários. Você não pode agradar todo mundo, e não gravo pensando em agradar a todos. No entanto, o trabalho de qualquer artista é olhar para o mundo e dizer o que eles veem. Todo artista, quer reconheça isso quer não, tem uma maneira preestabelecida  de ver o mundo e dar sentido ao que vê. Mesmo que seja uma maneira recheada  de incredulidade – sem crer que haja algo controlando o mundo e que tudo é completamente casual. Sempre existirá uma maneira preestabelecida como as pessoas analisam o que ocorre no mundo.
Um monte de “arte cristã” trata mais das “lentes” que usamos para ver as coisas do que do mundo que enxergamos através delas. Não vou criticar ninguém por fazer isso, mas prefiro olhar o mundo através do chamado para seguir a Jesus e dizer o que vejo. Mas isso não pressupõe que toda a arte que vou fazer será sobre seguir a Jesus.
No ano em que gravei  Stockholm Syndrome, aconteceram várias situações que me fizeram pensar muito sobre as questões referentes a raça e sexualidade. Tenho um monte de amigos e familiares que estavam sofrendo por causa do julgamento dentro da igreja. O meu melhor amigo é gay. Senti que havia um monte de gente ao meu redor traçando limites. Foi então que decidi: não quero traçar limites e escolher ficar de um lado ou de outro. Porém, se alguém vai me forçar a escolher de que lado quero estar, vou ficar do lado daqueles que estão sendo julgados, porque era assim que Jesus se encontrava com as pessoas. Fiz Stockholm Syndrome em meio a essa jornada. Essas mesmas lentes este ano me ajudaram a compor Feedback. São trabalhos artísticos bastante diferentes, mas foi exatamente a mesma ética que norteou esses dois registros.
Sou um ateu que trabalha para envolver os religiosos e os não-religiosos em torno do diálogo e da ação positiva. Queria saber o que você acha que pode ser feito para diminuir o que é talvez seja a maior divisão inter-religiosa: a existência de ateus que querem ver o fim de todas as religiões e parecem ser especialmente desfavoráveis ao cristianismo, e alguns cristãos que acreditam que os ateus estão causando a destruição dos nossos valores.
Acredito que deveríamos ir além da tolerância, precisamos amar e cuidar daqueles que não são como nós e não acreditam nas mesmas coisas. Puxa vida, essa é uma disciplina espiritual! Uma das características de seguir a Jesus é ir atrás e amar as pessoas que são diferentes de nós e têm crenças diferentes. Precisamos viver vidas cheias de amor, compreensão e achar um terreno em comum para conviver com essas pessoas.
O que muda a cabeça e a linguagem das pessoas são os relacionamentos. Pessoalmente, acho que qualquer cristão que não tem um amigo de verdade que é gay deva falar sobre a questão gay. Acho que devia ser quase uma obrigação antes de alguém expressar publicamente a sua opinião. É quase impossível descrever como sua postura e sua linguagem mudam quando você não está falando apenas de um “comportamento” ou de um grupo de “infiéis”, mas sim de um membro de sua família ou de alguém querido. Não estou dizendo que devemos mudar nossas posições sobre questões que pensamos ser verdadeiras, mas tudo poderia mudar se realmente conhecêssemos essas pessoas.
Qual é a sua visão para o futuro do cristianismo? Que tipo de comunidade cristã que você quer ver?
Honestamente, adoraria ver os cristãos seguindo a Jesus. Ele não era um cara fácil de seguir, especialmente quando começou a falar sobre amar o próximo e amar os inimigos; ir além da tolerância para viver entre pessoas que não são como você e que discordam de você. Realmente quero insistir em alguns desses pontos, porque acho que essas são as principais características de um seguidor de Jesus.
Não acho que o cristianismo, Jesus ou a Bíblia falharam. Acho que foram os cristãos que não conseguiram crer e viver isso. Se os cristãos conseguirem olhar para o exemplo e os ensinamentos de Jesus e os seguirem, acho que descobriríamos que são incongruentes com muito do nosso cristianismo cultural e nossa prática cristã de hoje. Gostaria muito de ver Jesus levar todos nós para fora do gueto que é a subcultura cristã.
Mesmo que isso acontecesse, continuaríamos sendo membros diferentes de um corpo. Ou seja, não quer dizer que, de repente, ficaríamos todos iguais. Continuaríamos tendo personalidades e dons diferentes. Essas diferenças são boas. Mas queria que mudasse a ética mais primária e básica que deveria guiar os seguidores de Jesus. Isso mudaria tudo e nos levaria de volta ao que realmente significa ser cristão: o amor.
Fonte: State of Formation / Gospel+
Tradução: Jarbas Aragão
Via: Pavablog

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