terça-feira, 26 de outubro de 2010

Confira a integra da versão do editor (sem cortes) da matéria especial da revista Época sobre a “Nova Reforma Protestante”

Ricardo Alexandre ganhou destaque com a matéria de cada da revista Época (da Editora Globo) do dia 9 de Agosto com o tema “A Nova Reforma Prostestante”. O texto fala dos “novos” evangélicos com suas práticas e crenças. Ricardo decidiu publicar em seu blog a matéria completa sem cortes da editora. Você confere na integra abaixo:

Abrindo mão das grandes estruturas e de olho na pós-modernidade, inspirados no cristianismo primitivo e conectados à internet, exigindo ética e criticando abertamente a corrupção neo-pentecostal, líderes e leigos querem recriar o protestantismo à brasileira

Por Ricardo Alexandre

Irani Rosique é um cirurgião de 49 anos, dono de um dos principais hospitais de Ariquemis, cidade de 84 mil habitantes do interior de Rondônia. Numa terça-feira daquelas típicas noites quentes do outono rondoniense, o médico está no alpendre de uma confortável mas não luxuosa casa de uma amiga professora, no Setor 3, bairro de classe média da cidade, junto a outros velhos amigos, alguns vizinhos e parentes da anfitriã. São aproximadamente 15 pessoas e Irani prepara-se para falar. Por 15 minutos, conversa com os presentes sobre o que o Salmo primeiro (“bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”) dizia aos corações dos presentes. Depois, oraram pela última vez – como já haviam orado uns pelos outros e cantado por cerca de meia-hora antes da palavra do cirurgião – então partiram para o tradicional chá com bolachas regado à conversa animada e íntima.

Irani não é pastor, presbítero, bispo, muito menos “apóstolo”. É apenas um médico que há décadas reúne-se em pequenos grupos de oração, comunhão e estudos da Bíblia. Com o passar dos anos, esses grupos se organizaram num modelo conhecido como “células”, com o objetivo de apoiarem-se e multiplicarem-se. Hoje, são 262 espalhados pela cidade, congregando cerca de 2.500 pessoas, organizadas tanto quanto possível por 11 “supervisores”, Irani entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com a única característica comum de serem crentes mais experientes e de, preferencialmente, terem passado por algum dos vários cursos de treinamento cristão existentes por todo o Brasil.

Desde que converteu-se ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia no final da década de 1960, Irani jamais participou de uma igreja formalmente instituída. Apenas de pequenos grupos sem o menor apego à liturgia ou clero. Adulto, chegou mesmo a ter dificuldades em divulgar seus projetos e eventos entre os chamados “evangélicos históricos”. Entretanto, hoje o médico é uma referência entre líderes de todo o Brasil, de bispos da Igreja Anglicana a professores do tradicionalíssimo Instituto Haggai. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã vindos de igrejas que, há 20 anos, não lhe retornariam um telefonema. Irani Rosique pode ser considerado uma espécie de símbolo de um período flagrante de transição que ocorre hoje nas igrejas evangélicas brasileiras em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões, hierarquias e quaisquer outras ortodoxias estão sob profundo processo de revisão e autocrítica.

Em São Paulo, o pastor Ariovaldo Ramos, formado teólogo e filósofo dentro das estruturas da igreja batista, missionário do Serviço de Evangelização Para a América Latina, ex-secretário da Associação Evangélica Brasileira e hoje líder da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo, atesta que a inquietação rondoniense deixou há muito o estágio do experimento. “O jeito antigo de comunicar o evangelho deixou de falar conosco”, diz. “Muitos líderes estão repensando o diálogo e, especialmente, a práxis cristã. Os religiosos que nos antecederam detinham a verdade absoluta. Então não precisavam dialogar nem com a sociedade, nem com quem não pensasse 100% como eles.”

Estima-se que sejam cerca de 50 milhões os evangélicos no Brasil – um crescimento seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando a hegemonia passou das mãos das chamadas denominações históricas (igrejas centenárias de raízes na Reforma Protestante, como batistas, presbiterianas, luteranas e metodistas) para as igrejas pentecostais, especialmente a Assembléia de Deus. Desde a década de 1980, porém, com o surgimento das denominações neopentecostais como Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça e Renascer em Cristo, o número cresceu 700%. Os neopentecostais acrescentaram à doutrina pentecostal de manifestações sobrenaturais o apelo da chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase no enriquecimento material. Entre alguns setores evangélicos mais otimistas, circula a estimativa de que até 2020 metade dos brasileiros deverá converter-se à fé evangélica. Dentro do próprio meio protestante, entretanto, há diversas vozes céticas e críticas desse modelo dominante que, segundo estes, moldou-se à sociedade brasileira de consumo em vez de influenciá-la como imaginavam sociólogos como Emílio Willems e Lalive D’Epinay. Essas vozes dissonantes, que ecoam em púlpitos, seminários, blogs, faculdades e pequenos grupos de todo o país questionam não apenas o apetite voraz dos neopentecostais por novos adeptos, mas, ao mesmo tempo, o que chamam de “ensimesmamento” das igrejas históricas. E propõem uma revisão geral de valores.

“Estamos, sem dúvida, numa mudança de paradigma, e as mudanças de paradigma são sempre complicadas, porque os que saem ainda não têm as respostas, e os que ficam estão apenas lutando desesperadoramente para manter o barco na superfície”, diz o pastor Ricardo Gondim, da igreja Assembléia de Deus Betesda, autor de, entre outros livros, Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas: A Graça de Deus e Nossas Frágeis Certezas. “O que temos hoje são mais inquietações do que soluções. Ainda somos filhos do velho paradigma e talvez nem sejamos nós a trazer as respostas, mas aqueles que nos sucederão. Uma coisa é certa: o movimento evangélico está visceralmente em colapso.”

Nos Estados Unidos, maior país evangélico do mundo e pátria da maior parte de seus desdobramentos mais controversos – tele-evangelismo, neopentecostalismo etc – a questão de reinvenção do modelo tradicional de igreja evangélica já mobiliza lideranças há algumas décadas. A igreja Willow Creek de Chicago, fundada nos anos 1970, trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja”. Em São Paulo, no início da década de 1990, o pastor Ed René Kivitz, recém-empossado na Igreja Batista da Água Branca adotou o lema para a sua própria comunidade, ao qual adicionou ser ainda “uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar.” Kivitz é atualmente um dos principais pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos mais aguerridos críticos da religiosidade institucionalizada. Em um evento para líderes, no final de 2008, advertiu algumas dezenas de colegas quanto qualquer perspectiva de mobilização em torno da “representatividade” política evangélica: “Eu não quero salvar a igreja evangélica brasileira”, disse na ocasião. “Essa igreja que está aí na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, não com a chamada igreja evangélica brasileira.”

Pós-modernidade – De uma forma ou de outra, com todas as diferenças denominacionais, teológicas e culturais, o que une a maior parte desses pensadores e líderes evangélicos é a busca pelo papel da religião cristã na chamada cultura pós-moderna. “As mudanças que estão acontecendo no meio evangélico hoje não são diferentes das mudanças culturais que a civilização ocidental está experimentando”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana do Limão, em São Paulo. Para ele, autor do livro A Piedade Pervertida: Um Manifesto Anti-fundamentalista em nome de uma teologia de Transformação , os efeitos negativos da sociedade moderna, como a urbanização incontrolável, a crise de diálogo com o mundo muçulmano e a crise ambiental, conduziram a um clima de descrédito com as instituições – quaisquer instituições – que se arvorassem inabaláveis, sejam bancos, escolas, sistemas políticos e igrejas. “Estão todos sob suspeita”, afirma. “Hoje, ninguém duvida que a espiritualidade é uma boa coisa, assim como educação é uma boa coisa, mas as instituições que as representam estão sob júdice.” Gouveia considera essa nova perspectiva uma “revolução cultural”, mas não se aventura a prever que novo modelo de fé cristã surgirá daí. “Alguns indícios nós temos. Uma certeza é de que a igreja não deve ser sectária, que deve estar envolvida com a sociedade – e a igreja da modernidade era orgulhosa de ser sectária. Outra certeza é de que a fé cristã não pode ser mais baseada na posse de uma verdade da qual eu tento te convencer com argumentação lógica e racional. Acreditamos que são os relacionamentos e as experiências de vida que podem levar as pessoas a experimentar a vida cristã, e não o convencimento de que eu cheguei a uma verdade que vai derrubar a sua mentira.”

Em parte, essa “revolução cultural” é um movimento contra o que esses pensadores chamam de “institucionalização” da igreja. Segundo eles, quase 500 anos depois das famosas “95 Teses” de Martinho Lutero, a igreja protestante – ao menos a sua faceta mais conhecida e numerosa – apresenta-se tão repleta de dogmas, tradicionalismos, carnalidades, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica medieval que Martinho Lutero tentou reformar. “A igreja evangélica tradicional se perdeu no linguajar ‘evangeliquês’, na igreja pela igreja, no moralismo, no formalismo, e deixou de oferecer respostas para quem vive no nosso tempo, na nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchoa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, cidade da Grande Recife. “Tornou-se muito difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com o mundo evangélico, por causa do excesso de formalismo e do vazio de conteúdo.”

Uchoa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina, com mais de 1500 membros. Apesar de pregar usando as tradicionais vestes sacerdotais, seu trabalho é reconhecido por toda cúpula anglicana como um dos mais dinâmicos e renovados do país. Ele, que ainda alimenta um blog na internet e trabalha em iniciativas solidárias sem vínculo com denominação alguma, é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante” e o trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnam em cafés, museus, praias ou pistas de skate. “O importante não é a forma”, afirma Uchoa. “O importante é encontrar a essência da fé cristã. Essa essência acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular as pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

Essa busca pela essência da espiritualidade cristã tem transformado diversos pontos até então tidos como característicos como dispensáveis – às vezes condenáveis. E, do ponto de vista dos mais ortodoxos, essas transformações conduzem ao risco do que chamam de “relativismo” dentro dos absolutos da fé cristã. “É claro que somos criticados como ‘relativistas’, mas penso que o nosso desafio é realmente aprender a contemporizar o que é relativo e o que é absoluto na fé cristã”, afirma Ariovaldo Ramos. “Sabemos, por exemplo, que a ética é um valor inegociável. A generosidade também. O amor também. Mas a estrutura eclesiológica, a religiosidade, são valores que muitas vezes se chocavam com a essência. Estamos abrindo mão deles”.

Em Campinas, funciona uma das experiências mais radicais de diálogo cristão com a sociedade pós-moderna. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem exatamente uma sede – seus freqüentadores reúnem-se em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e ofertas da liturgia de suas reuniões – os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo via depósito bancário, e esperar em casa um relatório detalhado dos gastos do mês. Seus “sermões” são chamados, mais apropriadamente, de palestras, e são ministrados duas vezes por domingo, com recursos multimídias e um palestrante sentado em um banquinho a frente de um MacBook. Como estímulo à mensagem bíblia, o freqüentador pode entrar em contato com uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda. Trocaram o uso do termo “igreja” por “comunidade”. Seu público é formado principalmente por gente com formação universitária entre os 25 e 40 anos.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai-mamãe-filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô Fora e A Jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Macumba para evangélicos – Outro ponto fundamental de confluência dessas novos evangélicos é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais, especialmente com as denominações expostas na televisão. “É lisonjeador quando somos chamados de ‘pensadores’ cristãos, como quem está problematizando a questão evangélica”, afirma Agreste. “Mas o verdadeiro problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência. É de ética e honestidade – ou, para usar um termo cristão, de santidade.”

O pastor presbiteriano entende como algo de grande importância que o tratamento dispensado aos neopentecostais tenha transcendido o campo das divergências teológicas ou de costumes. “Nos últimos tempos, essas divergências ganharam uma conotação mercadológica”, ele explica. “Não se trata mais de pensar de forma diferente sobre a essência da espiritualidade cristã. Hoje se trata de entender que há gente utilizando vocabulário, elementos de prática cristã para manipular as pessoas e ganhar dinheiro com isso. Essa tomada de posição tornou a crítica muito mais acirrada.”

Como efeito, há um movimento grande de crítica aberta ao segmento evangélico vindo das entranhas do próprio movimento evangélico, especialmente contra seus ramos ligados à teologia da prosperidade. A jornalista Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em Nome de Deus, sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores e líderes. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O Que Estão Fazendo com a Igreja: Ascenção e Queda do Movimento Evangélico Brasileiro, um desolador retrato de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto da personalidade e o esquerdismo político. Ricardo Bitun, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, dedicou-se a estudar o assunto e publicou a tese Igreja Mundial do Poder de Deus: Rupturas e continuidades no campo religioso neopentecostal. O presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez definiu as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus como descarrego, quebra de maldições, objetos benzidos como “macumba para evangélico”. “Não chega a ser uma novidade essas críticas internas”, afirma Renato Fleischner, gerente editorial da Editora Mundo Cristão, citando livros dos anos 1990 como Supercrentes e Evangélicos em Crise do teólogo Paulo Romeiro ou internacionais como Como Ser Cristão sem Ser Religioso de Fritz Ridenour e O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Menning. “É um discurso bastante antigo. O que parece que aconteceu recentemente é que a sociedade se fartou dos escândalos e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há muito tempo.”

Fleischner lembra que em 1993, ano de lançamento do livro Supercrentes, a editora foi muito criticada por líderes e por fiéis escandalizados com o texto que afrontava, nominalmente, alguns dos principais nomes da teologia da prosperidade e da confissão positiva como Valnice Milhomens (futura fundadora da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo), Edir Macedo, Estevam Hernandes etc. “A posição mais comum na época era não expor as pessoas, não julgar, tratar internamente”, diz o editor. “Mas hoje há uma necessidade muito maior de registrar que esses evangélicos que estão na mídia não representam e nem se parecem com a totalidade do povo evangélico brasileiro.”

O pastor Ed René Kivitz distingue a crítica interna dos evangélicos da cobertura que a mídia tradicional faz dos escândalos envolvendo os líderes evangélicos. “Já existe uma voz criticando essa igreja que está na mídia como um fenômeno social, cultural e religioso. Para fazer essa crítica não requer bagagem teórica ou histórica. Nem muita inteligência, basta ter um pouco de bom senso. Essa crítica o CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, afirma. “Eu faço uma crítica diferente, teórica, como pastor. É uma crítica visceral, passional, existencial, porque antes de ser um ‘profissional da religião’, eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”

Como efeito, diversos pontos comuns entre as diversas correntes evangélicas começaram rapidamente a ser questionados. A relação entre pastores e membros é cada vez mais horizontal, com abertura para diálogo e constante avaliação. As decisões estão cada vez mais nas mãos da própria comunidade, sem espaço para ingerências de uma “sé” ou de um “ungido de Deus”. Os grupos de reunião nas casas são o coração das novas igrejas, encerrando uma era de catedrais evangélicas imponentes e de “cultos-show” superproduzidos. Trabalhos, ministérios e eventos entre diferentes denominações tornam-se cada vez mais comuns. Músicas ligadas à chamada “teologia triunfalista” (arraigada em temas do Antigo Testamento como vitória, vingança, peleja, unção, guerra e maldições) passam a ser entendidas como próprias do judaísmo, e não do cristianismo. Até o vocabulário muda: termos como “culto” começam a ser substituídos por “celebração”, “encontro” ou “reunião” e até o desgastado termo “evangélico” começa a ser substituído pelo mais radical “cristão”.

“Os neopentecostais é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, diz o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos. Prefiro chama-los de seitas paraprotestantes.”

Meia-dúzia – O sociólogo Ricardo Mariano, um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico nacional e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil vê com naturalidade o embate entre neopentecostais e as lideranças críticas. “Desde que o neopentecostalismo ganhou força no Brasil que os pastores históricos partiram para a desqualificação”, diz. “Mas não há nenhum órgão que regule o que é ou não uma legítima igreja evangélica, logo ninguém tem autoridade falar em nome de todos os evangélicos”. Mariano acredita que uma das chaves para entender essa cisão é a formação cultural dos crentes. “Essas comunidades progressistas são direcionadas ao público classe média, letrado. É um público que colocou os pés numa universidade, lê jornais e revistas e tem capacidade muito maior de formar e sustentar opiniões próprias. Evidentemente, com quem pesquisa e questiona, não dá para existir essa história de ‘não pode assistir televisão porque a Bíblia não quer’. É um fenômeno do espalhamento da informação. Vivemos uma época em que o doente pesquisa na Internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor. Em uma época assim, o pastor não impõe nada, ele joga para a consciência do fiel.”

O diretor-geral da editora Mundo Cristão, Mark Carpenter, vê o crescimento do nível educacional e econômico do brasileiro como um fator determinante do novo perfil evangélico. “É muito difícil que alguém com formação universitária, com senso crítico, consiga se sentir confortável em uma igreja em que um pastor muitas vezes leu menos do que ele e ainda tenta mante-lo em um cabresto cultural.” Isso explica que as inquietações religiosas pós-modernas sejam mais claras em capitais mais avançadas econômica e culturalmente. “Eu falo para um auditório formado quase que totalmente por gente com formação universitária, em uma cidade como São Paulo”, diz Ed René Kivitz. “São pessoas que não querem dogmas, querem honestidade. As dúvidas deles são as minhas dúvidas. Minha postura com eles é a de que juntos talvez possamos encontrar algumas respostas satisfatórias às nossas inquietações. Talvez eu não tivesse essa mesma postura se estivesse servindo a alguma comunidade em um rincão do interior.”

Embora essa circunstancia de crescimento da classe média seja suficiente para a circulação de ideias e para o crescimento das próprias comunidades, Ricardo Mariano não vê termo de comparação entre a força atrativa dessas igrejas com a dos pentecostais e neo-pentecostais. “O destino desses líderes vai ser o de ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia-dúzia de pessoas”. O presbiteriano Ricardo Gouveia rebate dizendo que “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer que precise ocupar espaço no mercado”, ele diz. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou fazê-lo mais interessante ou vendável.”

Multimídia – Com o advento da internet, o trânsito de ideias tornou-se definitivamente incontrolável. Hoje, pastores, seminaristas, músicos, líderes e leigos mantêm sites, portais, comunidades e blogs em que trocam experiências, estudos em pdf e mensagens em mp3. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o “Contrato da Fé” (um “documento” “autenticado” pelos pastores prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” e “herdar o que é seu por direito”) grassou a rede angariando toda sorte de comentários. Uma cópia scaneada da sentença do juiz federal Fausto De Sancti culpando Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas foi amplamente distribuída no final de 2009, especialmente por conta das considerações do juiz, alegando “nítida contradição entre aquilo que fazem e dizem” e que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. Outro vídeo, com o pregador americano Moris Cerullo no programa do famoso assembleiano Silas Malafaia prometendo uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede.

“A internet forma comunidades, no sentido tecnológico mas no sentido teológico também”, diz o editor Renato Fleischner. “São pessoas em volta de ideias semelhantes, com ideais comuns, ainda que não pensando necessariamente da mesma forma. A circulação de palestras, sermões, pdfs, links e vídeos dificulta o aprisionamento do pensamento.” Um dos livros mais polêmicos da Mundo Cristão é A Bacia das Almas, reunindo os melhores posts originalmente publicados no blog homônimo do ilustrador Paulo Brabo com o provocativo subtítulo de “Confissões de um ex-dependente de igreja”. Outros sites, como Pavablog, Veshame Gospel, Irmãos.com.Br, Púlpito Cristão, Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica.
De um grupo de blogueiros, por exemplo, surgiu a ideia da “Marcha pela ética”, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus de São Paulo (evento organizado pelo casal Hernandes, da Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “o $how tem que parar”, “voltemos ao evangelho puro e simples” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.

Uma característica comum a todos esses blogs é que assuntos como teologia, política, sociologia, ética, família, direitos humanos, televisão, cinema e MPB se misturam com a mesma naturalidade. Esse trânsito entre o “secular” e o “santo” é uma das características mais marcantes dessa geração. “Os líderes tradicionais diante de toda confusão emergente, normalmente optam pelo ensimesmamento, pelo ostracismo”, diz Ricardo Agreste. “Nós ousamos entrar em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento da cultura, assistir a outros filmes, ler outros autores, ouvir pessoas e refletir sobre tudo isso. Porque acreditamos que a espiritualidade cristã tem a missão de resgatar a pessoa como ser relacional, que vive em sociedade, e faze-la interagir e transformar a sociedade.”

O raciocínio anti-sectário se espalhou para a música, por exemplo. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem como “música feita por cristãos” e não mais “gospel”, rompendo os limites entre “mercado” evangélico e pop. Em São Paulo, o capelão Valter Revara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra diversos cursos, seminários e eventos de conscientização ambiental em igrejas e, em mão oposta, ambiciona levar os valores cristãos de conservação em escolas e centros comunitários. “No fundo é a mesma proposta de materializar o amor ao próximo no dia-a-dia, de ser ‘sal da terra’ que marcou boa parte das sociedades protestantes”, afirma Ravara. “Nós não jogamos papel no chão, nós temos consciência social, porque a função da igreja é ‘contaminar’ quem está a nossa volta, ser ‘sal da terra’, como Jesus mandou.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia Verde, com laminação biodegradável, verniz à base de água, papel de reflorestamento e encarte com devocionais sobre ecologia e sustentabilidade. Agora prepara a primeira Bíblia de estudo direcionada para questões ambientais.

O anglicano Robinson Cavalcanti afirma que um dos aspectos que mais o seduziu no protestantismo, durante sua conversão na década de 1950, era justamente sua luta por uma sociedade utópica. “Desde a abolição da escravatura, apoio à proclamação da República, luta pelas escolas mistas, luta pela reforma constituinte”. “A alienação dos evangélicos brasileiros é coisa muito mais recente, desde quando a suposta hegemonia passou para os pentecostais e neo-pentecostais e começou essa história de ‘crente não se mete em política’.” A candidatura de Marina Silva à presidência da república, que angariou simpatia de blogueiros e twitteiros, mas não o apoio de sua própria igreja (a Assembléia de Deus, que declarou apoio a José Serra) é visto como um marco da nova inserção política desses novos evangélicos. “Políticos cristãos devem tentar criar um modelo de pensamento político ou de contribuição social que expresse o Reino de Deus dentro da política”, afirma Carlos Bezerra Jr, líder do PSDB na câmera dos vereadores de São Paulo. “É o oposto do modelo tradicional, das candidaturas oficiais que sustentam impérios eclesiásticos, e das ‘bancadas evangélicas’ no Congresso, de gente que está na política apenas para defender sua própria denominação ou conseguir facilidades para ela.”

Nesse ponto, os novos evangélicos – especialmente aqueles ligados ao movimento conhecido como “missão integral” – se aproximam da práxis desenhada há mais de 30 anos pelo catolicismo como Teologia da Libertação. “Foram eles que nos ensinaram a fazer teologia não a partir de conceitos, mas a partir da realidade do nosso tempo”, diz Gondim, cuja tese de mestrado em Ciências da Religião foi justamente Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica. Os líderes simpatizantes dessa corrente têm se empenhado em ações sociais diversas que vão desde parecerias com ONGs até trabalhos junto a viciados no centro da cidade, passando por campanhas mobilizando os fiéis. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para ser vivido na vida cotidiana, e não dentro das quatro paredes de uma igreja. Deus é adorado por meio do nosso trabalho, da nossa cidadania e pela ética com que vivemos nossa vida.”

Ao citar os reformadores, Gouveia talvez dê a dica das reais dimensões do movimento empreendido por esses homens, mulheres, blogueiros, pastores, teólogos. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu no século 16 com a reforma protestante, só que, desta vez, direcionada para as entranhas da igreja protestante. Cansados das indulgências, da corrupção e do descrédito crescente, pessoas de dentro da própria estrutura levantaram-se para propor uma nova forma de enxergarem o mundo e serem enxergados por ele. “Marx e Freud nos convenceram de que se alguém tem fé, então só pode ser um alienado, um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências de segurança”, diz o pastor Ed René Kivitz. “Pois hoje nós queremos dizer que o cristianismo tem espaço na sociedade, e um espaço de inserir-se e contribuir como uma das forças de construção de uma alternativa para o modelo de civilização da era moderna. Vivemos um terceiro momento, depois de uma ideia de religião como um gueto, ensimesmada, na ostra, e depois de uma religião como questão de foro íntimo, sincrética. Nossa defesa é do cristianismo como um projeto coletivo, uma das forças para construir uma sociedade que todo mundo espera, não apenas os cristãos.”

Fonte: Causa Própria / Gospel+
Via: Pavablog

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