segunda-feira, 7 de junho de 2010

Guilherme de Pádua sala sobre seu testemunho e prisão: “As pessoas pisam em mim porque sabem que sou inofensivo”


Dezoito anos se passaram desde aquela noite de dezembro de 1992 quando a atriz Daniela Perez foi morta num matagal na cidade do Rio de Janeiro, um dos crimes que mais chocaram o Brasil. Com a palavra, um dos condenados, o ex-ator Guilherme de Pádua

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O encontro foi marcado para uma quinta-feira à tarde na igreja Batista da Lagoinha, região central de Belo Horizonte. O templo, onde acontecem os cultos religiosos, impressiona pela grandiosidade e beleza: uma construção circular, em três níveis, tudo impecavelmente limpo e bem cuidado. Além do templo, a construção se desdobra em outros andares, com diversas salas. Quem nos recebe é Paula Maia, esposa de Guilherme de Pádua. Cerca de quarenta minutos depois chega Guilherme, ofegante, após subir a pé a ladeira que dá acesso à entrada principal do templo.

“Estou meio fora de forma”, comenta. Ele nos mostra o local em que passa boa parte do dia trabalhando, um pequeno cômodo no fundo do templo, com equipamentos de edição e um computador. Seguimos para o local onde funciona a rádio Lagoinha. É lá que acontece a entrevista. O cômodo, com cerca de quatro metros quadrados, possui uma mesa circular, vários microfones e paredes revestidas de espuma por uma questão de acústica. Dois gravadores posicionados, uma câmera de vídeo devidamente montada sobre um tripé e tem início a conversa. Sentada ao lado de Guilherme, a esposa Paula. Os dois permanecem de mãos dadas durante uma hora e meia de duração da entrevista. Perdão, culpa, preconceito, discriminação, resignação. Nada é abstrato na vida de Guilherme. Ele convive diariamente com seus fantasmas. Perguntado se acha, intimamente, que pagou pelo que fez, responde com outra pergunta: “Os erros que a gente cometeu na vida, as pessoas que magoamos, como medir isso?”

Caso Daniela Perez

Atriz, Daniela Perez tinha 22 anos quando interpretou a personagem Yasmim, na novela De Corpo e Alma, de autoria de sua mãe, a autora Glória Perez. No dia 28 de dezembro de 1992, a atriz foi encontrada morta em um matagal no Rio de Janeiro, assassinada com 18 golpes de tesoura. Desde o início, ele e a esposa ficaram presos e foram acusados do crime. A promotoria alegou que Guilherme e Paula teriam fechado o carro de Daniela em frente a um posto de gasolina, que ele e a atriz teriam saído de seus carros discutindo e que ele teria dado um soco em Daniela, desacordando-a. Ele então teria arrastado a vítima para o carro dela, tomado a direção enquanto sua ex-esposa conduzia o outro carro até o local onde cometeram o crime.

Inicialmente, por cerca de oito meses, Guilherme assumiu a autoria do crime sozinho, mas posteriormente, depois que Paula começou a acusá-lo, mudou a versão do assassinato, dizendo ter separado uma briga entre a esposa e a vítima, movida por ciúmes. Em sua defesa, ele alegou que segurara a vítima com muita força na tentativa de proteger a esposa, que estava passando por uma gravidez delicada e que isso teria resultado no desmaio ou na própria morte de Daniela. Segundo o que passou a declarar, ao pensarem que Daniela estivesse morta, Paula teria cometido os golpes de tesoura na tentativa de forjar um crime de algum fã fanático enquanto ele tentava adulterar a placa do veículo para escaparem do local sem serem responsabilizados.

Paula, por sua vez, sempre se declarara inocente, dizendo que nem mesmo estava no local do crime e que teria passado mais de oito horas esperando pelo marido em um shopping. O ator Guilherme de Pádua e sua mulher na época, Paula Thomaz, foram condenados a dezenove e a dezoito anos e seis meses, respectivamente, por crime qualificado, como queria a acusação.

Por terem ambos cumprido cerca de seis anos e nove meses de prisão (por questões burocráticas Paula ficou alguns dias a mais na prisão), Glória Perez iniciou uma campanha popular para modificar a Lei dos Crimes Hediondos. Desde então, o homicídio qualificado (praticado por motivo torpe ou fútil, ou cometido com crueldade) não permite pagamento de fianças, com o dever de o condenado cumprir um tempo maior de pena para a progressão do regime fechado ao semiaberto.

Quem é o Guilherme de Pádua hoje?
Sou um cara que trabalho demais, mas muito mesmo. Não tenho grandes confortos, grandes luxos. É uma vida totalmente voltada para o mundo cristão. Depois que me converti, vivo no ambiente cristão. Lógico que fica a família, mas o mundo onde você vive é o mundo com que você acaba se relacionando. Sou uma pessoa que acordo cedo, durmo tarde, tenho três cachorros vira-latas. E posso dizer que não aproveitei muito ainda o meu casamento por trabalhar demais.

Você fala que trabalha muito. O que você faz?
Trabalho na igreja. Sou obreiro (é um cargo de alguém que sonha em ser pastor, missionário ou evangelista). São coisas que se faz na obra de Deus para levar a Palavra Dele para outras pessoas. Cumprir o chamado que Jesus deu: ide e pregai o evangelho. Todas as pessoas que vêm para a igreja têm dentro de si o desejo de levar a palavra, falar a boa nova, falar sobre Deus. Quando você recebe Cristo você fica tão feliz que quer contar para todo mundo o que aconteceu.

E como é sua vida?
Não vou para bares, não bebo, não fumo, não olho para as mulheres que estão passando. Porque quem vem para igreja, quem tem um compromisso com Deus, e tem a felicidade de receber uma graça, tem esse compromisso. Eu saí da cadeia, quantas coisas aconteceram comigo que hoje considero um milagre estar vivo. Eu poderia ter morrido dez vezes. Então, a gente fica tentando não errar porque Deus fez a parte dele por mim. Agora é a minha vez de fazer a minha parte.

Você falou que poderia ter morrido dez vezes. É sobre o tempo na prisão?
Principalmente, porque eu convivia muito de perto com a morte. Quando entrei no presídio do Rio de Janeiro, escutei de longe uma pessoa gritar. Havia quase dois mil homens dentro daquele presídio. Estava no pátio de visita, é complicado você chegando, tirando a roupa para vistoria, no meio de toda aquela opressão. Aí, de repente, escuto uma voz falando: “Guilherme de Pádua chegou aê”, e outras pessoas respondendo “demorou” e o prédio todo balançando. Já escutei muitas pessoas falando “eu vou te matar”.

E qual era a sensação neste momento?
No começo, nem sei explicar. O meu primeiro dia atrás das grades foi no réveillon, faltou água na cadeia e começaram a botar fogo em tudo, houve um início de rebelião. Pensei em me matar naquele dia. Mas houve a intervenção de uma senhora que trouxe uma cesta de café da manhã, uma carta, uma bíblia e falando que Deus me amava. Fiquei muito impressionado porque até então não sabia dos evangélicos, que eram pessoas que tinham esse amor. Posteriormente, acabei me convertendo e quando cheguei ao presídio ficava perguntando a Deus se tinha chegado a hora de morrer. E neste momento há vários questionamentos na nossa cabeça, como se fosse moribundo, pessoa que está no hospital, em estado terminal, você começa a pensar em Deus. A coisa mais certa que temos na vida é a morte, só que ninguém se lembra. A cadeia é muito terrível. Assisti várias mortes, já teve gente que tirei da morte, fiz pedido, na linguagem de cadeia. Pessoas sem socorro. É um lugar muito árido, sem comida, sem remédio. Se não tivesse a fé para me apoiar, teria enlouquecido. Talvez tenha sido uma forma de fuga, mas me tornei uma pessoa muito dedicada a Deus.

Você é feliz hoje?
A felicidade é muito abstrata. Tenho muitos conflitos, todo mundo tem. Mas me considero feliz porque aceito que essa vida é passageira. Quem se apega demais à vida, à riqueza, compara-se demais aos outros, acha que tem que ter sucesso, fama, tem de ser mais bonito, é muito frustrado. Sou um resignado com as minhas coisas. Aceito a realidade e as dificuldades que tenho. Não é fácil. Dizer que é feliz não é dizer que se está sempre alegre. É dizer que você aceita a sua realidade, que está disposto a encarar, tentar mudar, tentar melhorar. Um guerreiro é feliz, apesar de estar na guerra, porque tem um propósito. Eu creio que sou mais feliz do que antes porque hoje tenho um propósito de seguir a Cristo, de tirar pessoas da morte, que estão prestes a se drogar. Tenho dedicado bastante da minha energia em fazer coisas bacanas. Se não tivesse a fé, eu já teria me matado ou teria enlouquecido. É muito difícil ser o Guilherme de Pádua .

Como é conviver com isso: ter seu nome sempre associado a uma pessoa e a um fato ruim?
São tantos sentimentos que causam na gente. Sou uma pessoa muito analítica, penso muito nas coisas, me coloco no lugar do outro. É uma coisa boa que me faz aceitar melhor as situações. Compreendo os sentimentos das pessoas. Mais uma vez a fé vem me fortalecer nisso, que diz para amar aquele que o persegue, bendizer quem maldiz, abençoar quem o amaldiçoa. É um mandado de Jesus. É transcender os limites do normal. É muito duro saber que pagou uma pena, num país em que pouca gente paga. A gente sabe: quem tem política, quem tem poder, dinheiro dá uma driblada geral.

Você sente que pagou pelo que fez?
Não sei dizer como é pagar corretamente. Quando você faz uma pergunta dessa, o que analiso é que está querendo saber se foi justo ou não foi. As pessoas questionam isso, não tenho como lhe responder. Sei que se fosse com um familiar seu, talvez quisesse uma pena mais branda. Mas se fosse contra um familiar seu, a pena teria de ser mais dura. O que sei é que o que a lei mandou eu fazer, eu fiz. Talvez fosse mais fácil se tivesse havido uma pena de morte. Teria ficado livre. Pago e ainda sou perseguido, acham que não tenho o direito… Não tenho chance.

Mas, e intimamente, você sente que pagou o que tinha de pagar?
Não tenho condições de falar, não sei como medir isso. Os erros que a gente cometeu na vida, as pessoas que magoamos, como medir isso?

Mas você ainda pensa no que aconteceu todos os dias?
Não penso todos os dias porque temos muitas preocupações. Tenho que pagar as contas. Então a gente corre sempre atrás dos afazeres. Dói-me muito ser uma pessoa que tem uma história triste. Quantas vezes desejei que fosse diferente. Sinto muita culpa. Dá-me muita tristeza saber que causei tanta dor. Não sei se paguei. Agora, como estou no Evangelho, eu creio que nenhum de nós pagou. A gente crê, quando estudamos o que Jesus ensinou, que as pessoas têm o costume de achar que o meu pecado é mais tranquilo. Eu roubei o emprego daquela, eu menti, eu traí meu marido, minha esposa, mas está tudo certo, isso é normal. A gente aprende que o ser humano comete erros demais. Primeiramente, creio que os meus pecados foram pagos na cruz. Eu pendurei os meus pecados junto com Jesus. Independentemente de ser Guilherme de Pádua, o Joaquim das Couves, a Maria da Silva, quem sou eu para pagar os meus pecados! Continuo sendo pecador, continuo tendo maus pensamentos. Por vezes fico com raiva e não desejo o bem que deveria desejar, às vezes falo coisas que não deveria falar, penso o que não deveria pensar. O ser humano tem tendência de justificar os seus erros. Todos se acham tão bons, mas todos são tão carentes de Deus. No meu caso, vejo como as pessoas adoram pisar. Se fosse um criminoso de nome, da vida do crime, todo mundo respeitaria. Uma coisa até me traz tranquilidade no coração, as pessoas não têm o menor receio de pisar em mim. Sabe por que? Elas têm consciência de que sou inofensivo. As pessoas me pisam porque sabem que estou num caminho diferente agora.

Quando aconteceu o crime, você era uma pessoa que estava construindo uma carreira na maior emissora do país. Você não acha que as pessoas ainda fazem a relação do Guilherme de hoje com o Guilherme de antigamente?
Deixa eu tentar olhar com a ótica de quem não está na igreja para tentar falar sobre isso. Onze anos depois de ter sido solto, de estar na igreja, pensei em falar o que Deus havia feito na minha vida. É o desejo do cristão em si. E, de repente, aparecem pessoas para me oferecer falar, sempre com aquela história de mostrar minha vida atual. O problema é que sempre que falam no meu nome parece que aconteceu ontem. As pessoas próximas, que me conhecem, sabem da minha conduta, do meu jeito de ser. Para as pessoas que estão distantes, parece que tudo aconteceu ontem.

Por que você escolheu um programa como o do Ratinho para fazer sua volta? Por que não falou o que queria? Teve medo?
É lógico que encarar um programa ao vivo dá medo demais. Quando era ator e entrava em cena, sempre sentia frio na barriga. Pensei que era hora de eu falar. Deixa eu falar por mim mesmo, entende? Não me arrependo de ter ido ao Ratinho. Abençoo a vida dele, a vida do programa. Acho que eles, do programa, talvez pudessem ter feito algo diferente. Mas cada um faz as suas opções, faz suas escolhas. Cada um puxa a sardinha para o lado que tem de puxar. Às vezes, as pessoas são honestas ou não. São justas, ou não. Mas sempre de acordo com os interesses.

Mas você falou que não pode ir a um restaurante, ir a um cinema, sair com as pessoas. Você sente falta disso, dessa vida de poder sair e mostrar a cara sem ter o risco de sofrer qualquer tipo de discriminação, preconceito ou rejeição?
Sinto falta, lógico. Minha esposa não vai a um restaurante quase nunca. Muitas vezes falo para ela ir com o pessoal. Eu evito bem. Tem horas que não consigo evitar, os parentes me arrastam. No dia dos pais, das mães, o aniversário do tio, da prima… Sinto falta de ir a lugares públicos como espectador. De certa forma o artista é privado um pouco disso, só que é diferente. Ele é famoso. Eu equacionei: hoje é um sobre a fama (1/fama), que é a equação matemática da minha vida, quanto maior a fama, mais problemático fica para mim.

Você já pensou em mudar de nome, de país, começar sua vida em outro lugar?
Pensei. Mudar de nome não adianta, teria que mudar de cara. E isso é complicado. Já pensou se me descobrem depois? Muda o olho, muda a boca, muda a sobrancelha, aí você não é você, mas todo mundo sabe que você é você. Isso dá muito certo em filme, mas na vida real, não. Pensei em mudar de país e ainda penso muito. Não sei como fazer isso. Não posso ir de forma ilegal. Conhecemos gente que vai até com coiote, mas sei que se for eu, alguém vai descobrir e vai dar zebra. Tenho que andar na linha. Para mim o ideal seria morar em outro país, que já daria uma aliviada boa. Porque ninguém me conhece tanto, já seria ótimo.

Se tivesse oportunidade de ficar frente a frente com a Glória Perez. O que diria a ela?
Nossa. Já sonhei com esse momento. Acho que beijaria os pés dela, deixaria ela me bater. Eu ia ter para dizer para ela que o mesmo Jesus que consegue salvar um criminoso e fazer a vida dele ter sentido, é o mesmo que faz uma mãe que perdeu a filha fazer coisas maravilhosas. A gente na igreja está sempre orando pelas pessoas que sofrem. Eu e várias pessoas. Minha oração talvez não signifique grande coisa nesse caso. Outras pessoas estão orando para vir uma mensagem que possa mudar o mundo. A gente vive num mundo onde árabes e judeus se odeiam e esse ódio já tem mais de cinco mil anos. Creio no meu coração que até o ódio que se perpetuou tanto tempo, que é persistente, que é alimentado, nutrido, enquanto outras pessoas vão se abrandando, está no propósito de Deus. A palavra que eu tenho, o testemunho que tenho é de transformação de vida. Apesar das dificuldades, apesar do que você vive, apesar da desgraça que está sua vida, creia porque Deus pode mudar sua vida. Mas não tenho uma mensagem de perdão, que possa mudar o mundo.

Você já falou que sente raiva, às vezes não tem pensamentos bons. Diante disso, como é conviver com o fato de a Glória Perez monitorar o que você está fazendo?
No começo, porque são 18 anos, às vezes me revoltava. Não porque eu achava que ela estava errada, porque todo mundo compreende. E talvez, no lugar dela, eu fizesse muito mais. A gente crê que até é louvável demais, que enfim, deve ter todas as suas qualidades, a forma como ela lidou com tudo. Por que sentia um pouco de revolta? Porque ela tem acesso e poder para que as decisões fiquem do lado dela, do lado da acusação. Quantas coisas foram faladas e ficaram por isso mesmo. Lembro-me de que algumas vezes ouvia falarem nos programas: esse michê, homossexual, desclassificado, e ficou por isso mesmo. Já vi gente na televisão instigando a população de Belo Horizonte a fazer alguma coisa contra mim. No começo, sentia um pouco de revolta. Sempre a Justiça estava contra mim! Estava lutando contra um rolo compressor. Mas hoje não sei se essa loucura da fé entrou tanto na minha cabeça, falo loucura falando a linguagem de vocês, porque para mim acho loucura não ter fé. Hoje eu torço tanto para Deus mover e fazer uma coisa milagrosa.

E o que seria essa coisa milagrosa?
O mundo precisa de perdão, de tolerância. Imagina, vamos pensar assim, nu e cru, se a gente for só vingar. Se você arrancou meu dedo, vou arrancar sua perna. É como os árabes e os judeus. Alguém tem que trazer uma coisa diferente. E pessoas como a Glória Perez são preparadas para isso. No dia que Deus derramar uma coisa assim e falar: olha filha, dessa vida aqui todo mundo vai embora daqui a pouco.

Mas você não acha que falar em perdão para você é mais fácil? Ela tem a ausência da filha…
Com certeza. Não tenho dúvida. Não tenho palavra de perdão porque qualquer pessoa diria que ‘falar de perdão para você é fácil, porque você precisa ser perdoado’. Eu falar de perdão não convence, não comove o coração. Mas se alguma outra pessoa falar, vai comover o coração . Nós precisamos dessas pessoas para levar essa mensagem. Agora, se você fosse uma pessoa drogada, desenganada, que não tem chances, (estou tentando mostrar que as pessoas têm missões diferentes), se você fosse uma pessoa assim, que não tem chance e eu começasse a falar sobre as coisas que Deus tem feito na minha vida, eu iria conseguir o levar esperança, levar uma mensagem válida. A mensagem do perdão que o mundo tanto precisa, tem pessoas que têm essa pedra preciosa na mão. Que podem mudar o mundo. Para mim não vai mudar nada, porque as pessoas que me julgam, continuarão me julgando, que querem minha morte, vão continuar querendo; as intolerantes vão continuar sendo. Mas para muita gente vai mudar. É uma mensagem maravilhosa que poucas pessoas têm mais capacidade, têm uma mensagem mais verdadeira, consistente para passar. E é isso que oro sempre. Para que pessoas como a Glória Perez, pessoas que passaram por grandes perdas, tragam essa mensagem. Muitos podem pensar: esse povo crente é louco. Somos loucos, mas é o que desejamos.

O que motivou o assassinato da Daniela Perez: foi vaidade, ciúme?
Sempre tem que ter essa pergunta e agora descobri que não posso responder. Fui ao Ratinho pensando: é a minha versão e posso contá-la para quem eu quiser. Aí surgiu aquela ameaça no twitter: cuidado porque você já foi condenado, solto e agora não é mais réu. Você não pode mais falar. Porque determinadas coisas que falar são coisas íntimas. Quem sabe do relacionamento que tinha com as pessoas da Globo? Quem sabe o nível de intimidade que tinha com cada um? Se eu falar que o Joaquim das Couves ou a Maria da Silva, que tinha uma intimidade ou amizade diferente. Que era amigo e frequentava a casa. Aí a pessoa vai falar: ‘como o Guilherme de Pádua foi falar isso? Vou processá-lo.’ Como vou provar que tinha?

Mas não é possível falar sem citar nomes?
Não tem jeito. Não tem porque a situação em si já é citar o nome. Além da questão do twitter, recebi uma correspondência dos advogados da Glória Perez me alertando oficialmente que não posso falar.

Mas teria mais coisas a dizer, muitos fatos novos?
Para a maioria das pessoas seriam fatos novos. A versão que ficou conhecida foi só a da acusação. Já cumpri pena e acho que há coisas mais significativas para se falar. Pessoalmente para alguém eu posso falar, mas perante uma câmera, num programa de auditório, ou escrever numa revista, não posso.

Você se sente frustrado por isso, de ser obrigado a ficar calado pelo resto da sua vida?
Eu me senti muito frustrado. Uma das coisas que no começo me deixava revoltado é que era sempre aquela história, como a história do sequestro que é ridícula. Nem um menino de dez anos acreditaria se pegar a lógica das coisas. Mas ninguém podia admitir que era ela quem dirigia o carro. Ou não quiseram, ou não acreditaram, é triste. Já fiquei muito revoltado, hoje estou resignado. É incrível pensar isso: as pessoas pensam o pior do pior, não tentam avaliar outras possibilidades. Mas até como cristão eu pensar que fui o pior e que Deus me restaurou e hoje sou o melhor, é até bom pensar nisso, o milagre é maior. Da fé sempre vem alguma coisa que ameniza a sua dor. Já me revoltou o fato de as pessoas pensarem: ‘mas falaram na televisão, então é tudo verdade’. Lembro-me de que depois que fui preso, apareceu um chofer de táxi dizendo que eu tinha assaltado o táxi dele. Ele foi fazer o reconhecimento para ver se era eu mesmo, não bastava estar na novela das oito. Achei que fosse igual aos Estados Unidos, onde várias pessoas do mesmo porte e tipo ficavam numa sala. Só que foi o contrário. Cheguei e tinha um velho de barba branca, um baixinho gordo, um negão fortão, e todas com roupa normal, e eu o único com cara de preso, de bermuda, chinelo, verde com cara de quem não toma sol. Olhei de um lado, olhei para o outro, e pensei: mas precisa de reconhecimento? E a polícia perguntou ao chofer de táxi: mas você não viu que ele trabalhava na novela? E o taxista: ‘eu trabalho muito e não vejo novela. Agora que vi no jornal’. E eram histórias que apareciam, isso me revoltou tanto. Mas agora, tudo bem: daqui a cem anos todas as coisas serão resolvidas.

Sua mulher acaba de lançar um livro Que amor é esse? A história real de Guilherme de Pádua. Ela vai detalhar alguma coisa, será sua vida pós-prisão ou terá fatos que as pessoas não conhecem?
Todos os fatos são novos. A ótica é um pouco diferente. É um livro que consideraria de autoajuda para pessoas que precisam romper e enfrentar problemas. A Paula foi muito feliz porque ela tem uma ótica mais otimista, feminina.

Seria uma forma de desabafar pelo fato de você não estar podendo falar?
Talvez. Em alguns momentos é um desabafo. E muito do que vivi dentro da cadeia. Muitos conflitos. A Paula gastou uns três anos, podia ter levado mais tempo para fazer mais coisas.

Mas há detalhes do crime?
Só lendo o livro. Talvez tenha coisas que você não está esperando. É igual a um filme, não posso contar o final.

Houve ameaça no twitter, você diz que tem um documento dos advogados de Glória Perez. Não tem medo que o livro gere um processo contra você?
Advogados avaliaram se a coisa estava dentro, digamos, de uma coerência, de um direito. Dizem que não tem como. Mas um processo injusto, de perseguição, sempre estamos sujeitos. Estamos encarando esse risco (fala para a mulher). Na verdade não estava encarando não, mas se você ler o primeiro capítulo, vai ver que é uma discussão nossa de ela insistindo que tinha que mostrar ao mundo que não é bem assim. E eu falando que não adianta. É uma discussão que continuará durante algum tempo. Parece que o livro é muito correto em suas colocações, muito justo. Creio que se houver Justiça mesmo, não tem por que privarem o público de mais esse acesso à informação.

Você é diretor de um grupo de teatro na igreja. Pensa em voltar a atuar?
Nunca pensei nisso. Até uma coisa que meu deu muita paz, porque em nenhum momento tentei resgatar minha carreira. Poderia ter ficado depressivo e mergulhado num buraco sem fim. A questão da fé me resignou porque não sinto saudade de nada. Uma vez em Belo Horizonte, me chamaram para fazer teatro. Perguntei se os diretores iriam colocar detector de metais para ver quem iria entrar para me dar um tiro. Eles falaram que essa coisa de ator está no sangue, mas falei para deixar quieto. Mas na igreja é diferente. É muito difícil fazer teatro na igreja. No mundão, as pessoas têm aquela gana, querem romper e ser ator. E o crente faz meio de hobby, não tem aquele compromisso. A gente quer é adorar a Deus, cantar, louvar, orar. E isso aí pega muito: quando a gente vai dirigir um grupo de teatro, dá nos nervos, porque as pessoas não são comprometidas. Mas como tem gente talentosa! O problema é que as prioridades são outras, mas talento tem demais.

Você e sua esposa pensam em ter outros filhos?
Pensamos sim. A gente tem um pouco de insegurança financeira. Tenho lutado muito para ter as coisas e ficamos com medo de não termos condições. Às vezes quase decidimos ter, mas aí seguramos. (Paula interrompe e diz: “Tenho medo é do parto. Mas, por enquanto, nós temos três cachorros, na hora que vier um nenenzinho vai ser bem-vindo”). Também tem a insegurança de ser quem eu sou. Quero tentar arrumar as proteções máximas que puder, o ambiente e o dinheiro para pagar as coisas.

Você acha que seu filho sofreria?
Com certeza. Imagina as outras criancinhas falando, os adultos. O ser humano gosta de pisar.

Você já sonhou ou ainda sonha com a Daniela Perez?
Sim, mas sinceramente prefiro não falar sobre esse assunto. Mas tive sonhos com certeza. Sonho com tanta coisa, sonho com cadeia…

Se tivesse um minuto em rede nacional o que você gostaria de falar?
Não sei se tem alguma coisa que possa falar que fará a diferença. Sabe o programa do Ratinho? Interessante que, quando ele levanta e vira as costas, primeiro ele perguntou se alguém tinha cuspido na minha cara. E eu falei claro, já aconteceu. Porque já havia contado para a produção. Poderia, naquele momento, falar dez versículos, mas no momento em que ele levanta e me deixa sozinho lá, não é preciso mostrar mais nada. É como se ele tivesse cuspido na minha cara ao vivo. Aquela hora sintetiza tudo o que eu sofro. Aquilo falou muito mais do que qualquer coisa que eu poderia falar. Tenho certeza de que quem tem bom senso falou, pensou: espera aí, o cara foi preso, pagou, foi convidado para o programa do outro. É meio estranho. Pelo menos é uma falta de compostura, uma falta de ética, uma falta de educação, uma pessoa pisar num cara que já não é mais para ser pisado. Isso falou muito mais do que eu tinha para falar. Tem uma frase que a gente usa de um grande pregador: pregue sempre o Evangelho, se preciso use palavras. Agora se você me dá um minuto, o que vale? Tantos vão lá e mentem? Qual a diferença? Acho que mandaria o cara me acompanhar um minuto no meu dia a dia, câmera escondida. Seria mais sensato do que falar alguma coisa.

Se não estivesse na igreja hoje, como estaria?
Eu era um cara que tinha muita tendência a fazer coisa errada. Gandaia. Era meio pervertido. Hoje vejo os meninos de 18 anos, todos certinhos e namorando, trabalhando para comprar apartamento. Aí casam e o casamento dá certo e dá uma inveja. Aí penso, meu Deus do céu, onde estava com a cabeça para ser o doido varrido que era no passado? Só queria saber de mulherada, droga, gandaia, e coisa e tal. A igreja mudou minha vida e de certa forma me fez ver o quanto perdi tempo, oportunidade.

E os seus pais, como ficaram?
Meus pais sofreram demais. Não tem nem como descrever. Até hoje. Qualquer coisa que os dois velhinhos, eles tem 86 e 75 anos, leem nos jornais ainda traz muito sofrimento.

E você ainda conserva amigos de antes do crime?
Sim. Tinha um amigo da época de gandaia, mulherada, bebidas, e ele acabou virando crente. E ficávamos zoando com ele. E hoje encontro com ele e falo: cara, a gente zoava tanto a sua cara. Tenho orgulho de você porque foi o primeiro que viu que aquele caminho não era legal.

Esse caminho errado foi o maior motivador do crime?
Acho que sim. Era uma vida de muita gandaia. Uma vida de fazer coisas que não se deve fazer.

Fonte: Viver Brasil / Gospel+

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