quinta-feira, 15 de abril de 2010

Menina escapa e revela 'torturas'

Priscilinha, 17 anos, não fala com a avó há três anos
Priscilinha, 17 anos, diz que ficou desnutrida, parou de estudar na 6ª série e foi vítima de terrorismo psicológico.

As mãos grossas, que começam a descamar por conta de um distúrbio emocional revelam parte do sofrimento de Priscilinha, 17 anos, uma das cerca de dez pessoas de Rio Preto que viveu na comunidade religiosa Jesus Verdade que Marca e conseguiu voltar para a cidade.
Ela chegou há cerca de 6 meses, deixando para trás a mãe e a avó. Veio apenas com o dinheiro da passagem para morar com um namorado, que a expulsou de casa semanas depois. Hoje, vive de favor na casa de conhecidos e tem dificuldades para encontrar emprego. Ela parou de estudar na sexta série.
Desde 2001, a menina é vítima de um grupo que alicia fiéis para trabalhar em pequenas cidades do sul de Minas Gerais e na capital paulista. O grupo, liderado pelo pastor José Cícero Araújo, foi acusado na Justiça por lavagem de dinheiro e contratação de mão-de-obra escrava. Hoje, se autodenominaria associação para evitar processos judiciais de pessoas que doaram seus bens, se arrependeram e pediram o dinheiro de volta.
A mãe de Priscilinha, que passava por dificuldades na época, conheceu a seita por meio da filha de sua patroa e se iludiu com as promessas de ajuda. Logo vendeu os móveis, doou o dinheiro para a seita e passou a viver com 11 desconhecidos. Em 2005, se mudou para Caxambu (MG) com a filha. Dois ou três anos mais tarde, a avó da menina também foi embora.
Ao chegar no estado vizinho, as famílias são separadas. Há pelo menos dez fazendas com 150 pessoas em cada uma. Sem contar os estabelecimentos comerciais em nome de laranjas, que dominariam a concorrência nas regiões de São Vicente de Minas, Minduri, Andrelândia e Caxambu.
Nos primeiros dias em território mineiro, a jovem diz que as refeições eram à base de quirela, alface e miúdos. Também chegaram a preparar carne de animais selvagens como corujas e macacos.
“Fiquei desnutrida. Eu não me adaptava àquela comida.”
Ainda criança, foi obrigada a parar de estudar sem completar o ensino fundamental para trabalhar.
“Só alguns (escolhidos pelos pastores) chegam à faculdade, para dar continuidade ao sistema.”
A jovem acrescenta que aposentadorias, pensões e até mesmo valores referentes ao programa Bolsa-Família, do governo federal, são entregues para os evangelistas. Os trabalhadores não recebem salário. Têm apenas produtos básicos para higiene pessoal e roupas baratas.
“Se alguém pede dinheiro para comprar alguma coisa diferente, eles dizem que Jesus sofreu por nós e que nós devemos sofrer também.”
Há quase três anos Priscilinha não tem notícias da avó. Mesmo ao lado da mãe, admite não ter intimidade para conversas a sós. “As regras são muito severas. Não deixam a gente ter amigos fora da comunidade, namorar ou ligar para parentes. Tudo é vigiado.”
Aos 14 anos, ela conseguiu vir para Rio Preto pela primeira vez e ficou com uma tia, época em que se apaixonou. Voltou para São Paulo com a mãe, à força, mas conseguiu manter contato escondido com ele até escapar de novo.
A doutrina, segundo informações dela, prepara os seguidores para a morte. Nos cultos de sexta-feira, os pastores pregam que Jesus voltará à Terra e as pessoas devem se martirizar.
“Eles perguntam se estamos prontos para ter nossos olhos arrancados.”

‘Lucas foi humilhado em público por fazer sexo’
O adolescente Lucas Lourenço de Almeida, 17 anos, estaria desaparecido da seita Jesus Verdade que Marca, segundo denúncia publicada com exclusividade, terça-feira, pelo BOM DIA.
Priscilinha conta que há cerca de dois anos todos os jovens do grupo foram convocados para uma reunião, por que estariam rebeldes.
Lucas foi usado como exemplo aos demais. Ele teria praticado sexo com a filha do evangelista Estevão, o que é proibido pelos líderes da comunidade. Por isso, foi xingado e passou o culto de joelhos, no altar.
Depois, a família foi transferida da fazenda F-4, onde morava com o menino, e os colegas foram proibidos de falar com ele. Os trabalhos de cultivo da horta também teriam sido substituídos pela construção de tijolos.
“Cheguei a passar pelo local algum tempo depois, mas não o vi nem tive notícias”, conta a jovem.
O BOM DIA conseguiu falar por telefone com Kátia Marques Poliane, tia do menino e que também faz parte da seita. Ela disse que as acusações não têm fundamento, já que Lucas vive em uma fazenda entre Madre de Deus e São Vicente de Minas com os pais e nunca foi agredido.
Entretanto, não soube afirmar o telefone dessa fazenda ou sua localização precisa. A microempresária Valdete Ferreira da Silva, mãe de Kátia e avó de Lucas, disse ter falado com a filha há 15 dias pedindo notícias do menino e não teve retorno até agora.
Kátia disse que não passou o recado por que não falou mais com o sobrinho nem com a irmã, Valéria.
Os responsáveis pela Jesus Verdade que Marca não foram localizados pela reportagem até o fechamento.

Agência Bom Dia/Notícias cristãs

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