terça-feira, 13 de abril de 2010

Arapiraca reproduz paralisia do Vaticano

População de cidade alagoana onde três membros da Igreja são acusados de abuso de jovens está chocada; vítima diz que havia certeza de impunidade.
Nas ruas de Arapiraca, as pessoas usam expressões de espanto e de repulsa quando comentam as denúncias que vieram à tona no mês passado envolvendo três padres da cidade alagoana, acusados de terem abusado sexualmente, durante anos seguidos, de coroinhas de suas paróquias. "Não consigo acreditar", disse o aposentado José Pedro de Oliveira, que conhecia e admirava um dos padres há 20 anos. "Um choque. Foi um choque", definiu o comerciante Moacir da Silva, dono de uma lanchonete na região central.
Essa é a visão da gente que conhecia os sacerdotes por meio de aparições públicas, missas e orações. Mas, entre as pessoas que têm ou já tiveram acesso às sacristias, casas paroquiais, seminários e outras dependências do mundo eclesial, os comentários mudam. Ganha corpo ali outro tipo de perplexidade, que envolve a demora da Igreja na adoção de medidas que impeçam o surgimento dos abusos e, pior ainda, sua continuidade. Em Arapiraca não se leva muito tempo para descobrir que os possíveis abusos sexuais cometidos pelos padres denunciados são tema de conversas há mais de dez anos nos bastidores da Diocese de Penedo - a província eclesiástica que engloba a cidade.
O que se pergunta aqui é: por que a Igreja não tomou providência? Por que deixou se repetir nesta cidade nordestina de pouco mais de 200 mil habitantes o mesmo tipo de inoperância que já foi seguidas vezes observado em diversas partes do mundo, desde meados dos anos 80, quando eclodiram nos EUA as primeiras denúncias de pedofilia envolvendo sacerdotes? Uma das possíveis respostas é que a Igreja ainda se vê como um mundo à parte, capaz de resolver sozinha, com seus códigos e normas religiosas, atos que a sociedade considera criminosos.
Os transgressores de Arapiraca usaram a seu favor essa atitude da Igreja. Pareciam tão seguros da impunidade que chegaram a tratar o assunto publicamente. Anderson Faria, de 21 anos, um dos três ex-coroinhas que decidiram denunciar os abusos a que teriam sido submetidos, relatou ao Estado que, seis anos atrás, quando decidiu se afastar do monsenhor Raimundo Gomes Nascimento, um dos acusados, foi surpreendido com a reação dele. No púlpito, diante de fiéis que não entendiam exatamente o que estava acontecendo, ele atacou o rapaz que desejava se livrar dos abusos, acusando-o de ingrato. "Disse que eu estava indo para o caminho do mal", lembrou o ex-coroinha.
Foi tão pesado que a mãe de Anderson dirigiu-se à sacristia, após a missa, para reclamar. Só recentemente, quando o filho relatou-lhe os abusos, ela teria compreendido a contundência da homilia do monsenhor. "Ele não tinha vergonha nenhuma do que fazia", disse o ex-coroinha.
Os fatos eram conhecidos nos círculos internos. Quando começaram a vir à tona, dois anos atrás, foram feitas negociações secretas para silenciar os ex-coroinhas. O bispo italiano d. Valério Breda, à frente da Diocese de Penedo há 13 anos, teria sido informado sobre cada passo desses episódios, segundo relatos e documentos apresentados pelos ex-coroinhas.
Silêncio. O Estado procurou, sem sucesso, conversar com o bispo em diferentes ocasiões na semana passada. Ele tem evitado a imprensa e também proíbe os padres de falarem. Em nota oficial, porém, assegurou na quinta-feira que só soube dos fatos após a reportagem veiculada pelo SBT em março, que deu repercussão nacional ao caso.
Em Arapiraca, a 130 quilômetros da capital, os três acusados que apareceram na primeira denúncia são bem conhecidos. Monsenhor Raimundo, de 53 anos, um homem robusto e de pensamento conservador, já chegou a dirigir a Diocese de Penedo, como vigário capitular. Isso ocorreu entre 1994 e 1997, quando o bispo alemão Constantino Lüers afastou-se do cargo e o Vaticano ficou indeciso quanto ao sucessor. Desde aquela época o nome do monsenhor passou a ser cogitado em todas as nomeações de novos bispos na região. Dizia-se até que seria o futuro bispo de Arapiraca, que, na condição de segunda maior cidade do Estado, sonha em ser elevada pelo Vaticano à condição de sede diocesana.
Prestígio maior tinha monsenhor Luiz Marques Barbosa - o sacerdote de 83 anos que aparece mantendo relações sexuais com um jovem na reportagem exibida pelo SBT e, de modo mais detalhado e explícito, no DVD que pode ser comprado em qualquer esquina de Arapiraca, ao preço de R$ 5. Ligado à Renovação Carismática, comandava uma onda de reavivamento conservador na Igreja local e dirigia obras sociais. Simpático, voz forte e afinada, dava ênfase aos cânticos durante as missas e pregava de modo direto e tocante.
É difícil encontrar alguém que não faça algum tipo de elogio ao monsenhor Luiz. Suas missas, na Paróquia São José, atraíam gente de toda a cidade. O motorista de táxi Cícero da Silva saía todos os domingos do bairro conhecido como Baixão e atravessava a cidade para ouvir monsenhor Luiz. "Ele falava da Bíblia de um jeito que até eu, que não sou muito bom de escrita, compreendia." Após as denúncias, o motorista deixou de ir à igreja: "Agora rezo o meu Pai Nosso sozinho em casa."
Se voltasse à Paróquia São José, o taxista veria que os admiradores do monsenhor se recusam a tirar seu retrato da parede da casa paroquial. Ele continua lá, imponente, ao lado do papa Bento XVI e de d. Valério.
O terceiro acusado, padre Edilson de Duarte, de 43 anos, era o mais jovem. Dirigia a Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho, no centro da cidade e, com o apoio dos dois monsenhores, era um nome em ascensão.
Entre as pessoas que procuram explicações para o que aconteceu encontra-se o padre Manoel Henrique Santana, professor em Maceió e ex-presidente da Associação Nacional do Clero. Para ele, parte da hierarquia da Igreja ainda tende a tratar casos de abuso como pecados a serem perdoados internamente. Na mesma linha, o juiz Manoel Tenório de Oliveira, professor de Direito Penal em Arapiraca, destaca que a cúpula da Igreja não se deu conta que deixou de ser inatacável, como no passado. "Espero que as denúncias acabem estimulando reformas na instituição", disse o juiz, que é padre casado, pai de três jovens e afastado das funções sacerdotais pela Igreja.

AE/Notícias Cristãs

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