terça-feira, 30 de março de 2010

Ex-candidato a papa defende discussão do celibato

Em entrevista a jornal alemão, cardeal Carlo Maria Martini diz que obrigatoriedade do celibato precisa ser reavaliada.

O cardeal italiano Carlo Maria Martini, tido como uma das figuras mais carismáticas da Igreja Católica, disse em entrevista a um jornal alemão que a Igreja Católica deveria rever a obrigatoriedade do celibato para os sacerdotes.
Ao comentar os casos de abusos sexuais cometidos por padres contra menores, o cardeal Carlo Maria Martini, de 83 anos, disse que o celibato é um problema e sugere uma profunda discussão interna na Igreja Católica para reconquistar os fiéis e recuperar a credibilidade.
"Devem ser colocadas questões fundamentais, como a reavaliação da obrigatoriedade do celibato dos sacerdotes como forma de vida", afirmou o cardeal arcebispo emérito de Milão, tido como um dos maiores especialistas da Igreja em Bíblia, na entrevista publicada no domingo no jornal Presse am Sonntag.
Carlo Maria Martini é um dos líderes da ala progressista da Igreja Católica e chegou a ser candidato a papa no conclave que elegeu Bento 16. O clérigo, que sofre há anos de Mal de Parkinson, defende a ordenação de homens casados, maior participação das mulheres na Igreja Católica e a comunhão para divorciados.
Na entrevista ao jornal alemão, Martini afirmou que a Igreja Católica deve abrir um debate interno sobretudo em relação às questões sexuais.
Martini defendeu que "questões centrais da sexualidade", fossem colocadas em sintonia "com as gerações de hoje, com as ciências humanas e com os ensinamentos da Bíblia porque somente uma discussão aberta pode dar novamente autoridade à Igreja, levar a correções dos erros e reforçar os serviços que ela oferece aos homens."

'Problemas psicológicos'
A polêmica em torno do abuso de menores por padres católicos voltou à tona na semana passada, depois que o jornal americano The New York Times publicou uma reportagem dizendo que, em 1996, o cardeal Joseph Ratzinger, que veio a se tornar o papa Bento 16 em 2005, não respondeu a cartas vindas de clérigos americanos acusando um padre do Estado do Winsconsin de abusar sexualmente de até 200 menores deficientes auditivos.
Após a denúncia do The New York Times, os principais órgãos de informação da Santa Sé denunciaram a existência de um ataque maciço da imprensa que teria a intenção de atingir o papa e a Igreja Católica.
As denúncias também reacenderam as discussões sobre o celibato, que seria, segundo alguns especialistas e religiosos, uma das causas dos abusos que os padres cometem contra crianças.
O estilo de vida fechado e celibatário da Igreja Católica poderia atrair pessoas com problemas psicológicos na área da sexualidade, por isso, eles sugerem como uma das soluções para evitar abusos, que seja admitida a ordenação de homens casados.
Na opinião do presidente da Conferência Episcopal Alemã, Monsenhor Robert Zollitsch, não há relação entre pedofilia e celibato.
"De acordo com especialistas, os abusos nada têm a ver com o celibato", afirmou o clérigo, após um recente encontro com o papa no Vaticano, para tratar das denúncias de abusos nas dioceses alemãs.
Segundo a imprensa alemã, o clero da terra natal de Bento 16 seria favorável à abolição do celibato obrigatório e pretende levantar a questão no Vaticano.
O cardeal arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, amigo pessoal de Bento 16, chegou a afirmar que o celibato seria uma das causas dos casos de pedofilia. Ele sugeriu que a Igreja promova uma discussão sobre a formação dos sacerdotes, o desenvolvimento da personalidade deles e também sobre o celibato.
Mas o porta-voz do cardeal desmentiu logo em seguida que fosse favorável à abolição do celibato.
O próprio papa ainda não se manifestou sobre assunto após as revelações do New York Times. Mas em um encontro com cardeais no começo de março, Bento 16 reafirmou o "valor sagrado" do celibato.

Investigação na Áustria
Schoenborn anunciou no domingo que vai criar uma comissão especial para investigar casos de abusos sexuais de menores por padres na Áustria.
A comissão será dirigida por uma mulher, a católica Waltraud Klasnic, 64 anos, e será independente e leiga. O organismo não vai atuar em contraposição ao trabalho da magistratura civil, informou o arcebispo.
O escândalo de pedofilia entre padres deve estar no centro das reflexões da Igreja Católica nos ritos da Semana Santa, que começou no domingo, com a cerimônia de Ramos.
Durante a cerimônia, o papa Bento 16 não se referiu diretamente ao escândalo mas as palavras que pronunciou na homilia aos fiéis na praça de São Pedro, no Vaticano, foram interpretadas como uma crítica velada à imprensa.
"O homem pode escolher um caminho fácil e evitar qualquer esforço. Pode ir para baixo, para o vulgar, afundar no pântano da mentira e da desonestidade", disse o papa em seu discurso.
"Jesus caminha em nossa frente para o alto. Ele nos conduz para o que é grande e puro, para a verdade e a coragem que não se deixa intimidar pelos falatórios das opiniões dominantes, rumo à paciência que apóia e ajuda o próximo, à disponibilidade para com os sofredores e abandonados e a bondade que não se deixa desarmar nem mesmo pela ingratidão", afirmou Bento 16.

BBC Brasil/Notícias Cristãs

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