domingo, 21 de março de 2010

Catástrofes aumentam medo do fim

Sismólogo Joaquim Ferreira
Catástrofes provocadas por fenômenos da natureza sempre aconteceram no mundo. O homem se sente impotente diante da força de eventos como terremotos, tornados, avalanches, enchentes, nevascas e tsunamis, para citar alguns. De uns tempos para cá, o noticiário tem sido povoado por tragédias cada vez mais frequentes, com grande número de vítimas e muita destruição. Isso só tem aumentado o medo entre a população do planeta. Será que estamos realmente chegando ao fim do mundo?

O psicanalista Marcos Cassiano diagnostica o medo pelo fim do mundo como algo recorrente ao longo da história da humanidade. Para ele, a cada milênio o ser humano atinge determinados ápices de medo. “Quando eu era menino, ouvia dizer que o mundo ia se acabar no ano 2000. Então, eu já era acometido desse medo. Mas não virou uma obsessão.”O psicanalista faz uma ligação entre o avanço do pensamento ecologicamente correto em nossa sociedade e o aumento do medo pelo fim da humanidade sobre a terra. “Na medida em que as pessoas se preocupam mais com a conservação do planeta, elas tendem a desenvolver uma fobia, porque cada vez se consome mais, cada vez mais há uma necessidade de criar situações onde as pessoas possam se estabelecer, porque o ser humano é um ser de desejo”, analisa.
Marcos Cassiano considera não estarem as pessoas preparadas para a ideia de fim de mundo. “Mas nós habitamos um planeta em constante processo de transformação. Isso aqui é uma fonte de energia esgotável. E essa voracidade do homem, através do consumismo, está acelerando esse processo destrutivo.”
O músico Adriano Tavares diz sempre ter estado atento a essa questão, muito antes das recentes catástrofes, sempre baseado pelas “profecias bíblicas”.
“Pode ser o fim do mundo como nós conhecemos e não o fim do planeta. Pode ser um recomeço, pois o mundo, na verdade, já acabou outras vezes”, filosofa Adriano.

Média de 20 abalos de magnitude 8 ocorrem por ano

Os fortes terremotos que hoje deixam o mundo estarrecido por suas proporções catastróficas são vistos com uma aparente tranquilidade por alguns especialistas da área de sismologia; algo assim como uma operação de rotina. Para nós, leigos, os fatos recentes são tidos como inéditos, mas é pura falta de informação.
Segundo sismólogo Joaquim Ferreira, coordenador do Laboratório de Sismologia da UFRN, cerca de vinte abalos, em média, de magnitude 8 na escala Richter são registrados por ano em alguma região do planeta, a maioria no meio do mar. Em tempo: o Chile foi atingido por um terremoto de 8,8.
“A maioria ocorre em área desabitadas. Quando acontecem em grandes cidades ou áreas bastante habitadas, o problema é bem maior”, comenta Joaquim Ferreira. “Hoje, os meios de comunicação noticiam logo e todos ficam sabendo na hora. A repercussão é maior, como no caso do Chile e do Haiti.”
Segundo Joaquim Ferreira, alguns levantamentos específicos podem até prever o risco de grandes sismos. “O pessoal estava realizando estudos e concluiu que a região de Concepción, no Chile, era bastante propensa a um grande abalo.”
O Chile é considerado um verdadeiro laboratório natural para os sismólogos por ser uma das áreas de maior atividade sísmica do mundo, pois está situado num ponto de convergência entre duas grandes placas tectônicas: Nazca e Sul-Americana, que deslizam uma sobre a outra, provocando tremores. A movimentação das placas naquele ponto acontece de forma bastante veloz.
É tanto que o maior terremoto já registrado na história ocorreu no Chile, em 1960, atingindo 9,5 graus na escala Richter, provocando inclusive um tsunami que provocou grandes estragos em vários pontos do Pacífico. Talvez por isso, Joaquim Ferreira não demonstre tanta surpresa com relação ao ocorrido no Haiti e no Chile, principalmente — do ponto científico e não da tragédia humana, vale salientar.
“Outra coisa é que nos terremotos ocorridos no passado, ninguém sabia da existência do tsunami. Só depois do ocorrido em 2004 é que as pessoas passaram a conhecer”, diz o sismólogo, comentando ainda que os maiores tremores no Brasil foram registrados nos estados de Mato Grosso e no Espírito Santo, alcançando, respectivamente, 6,6 e 6,3 graus da escala Richter.

Igreja Católica diz não pregar discurso apocalíptico
Ao longo dos séculos, religião e ciência sempre mantiveram grandes divergências sob vários aspectos, sendo a origem do homem um dos principais embates. A Igreja Católica, porém, vem se mostrando mais aberta e receptiva a certos temas. Com relação às recentes catástrofes, padre Robério Camilo, coordenador do Setor Social da Arquidiocese de Natal, diz haver uma concordância de valores.
“A Igreja concorda com tudo o que a ciência diz sobre os recentes terremotos e não envereda pelo campo das profecias sobre fim do mundo, fim dos tempos”, afirma o religioso. Para ele o discurso religioso não se afina em nada com a desordem criada pelo ser humano no planeta, nem muito menos com “o pequeno grupo que vai destruindo tudo em nome da ganância”.
O discurso da Igreja Católica hoje, de acordo com o dirigente da paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, Petrópolis/Areia Preta, é para o fiel se preservar da natureza, uma vez que o planeta está em pleno processo de auto-proteção — defendendo-se do processo destrutivo desencadeado pelo homem. “Hoje, temos que preparar nossos filhos para se defender do próprio planeta.”
Além de estar em sintonia com a ciência, a Igreja Católica também defende e endossa a questão ecológica na sociedade, segundo padre Robério. “Não há nada de assombroso ou apocalíptico. Essas catástrofes são uma forma de o planeta frear a humanidade, não só com relação ao que o homem vem fazendo com a natureza, mas também no campo da violência, das drogas e do sexo.”
Em seu cotidiano junto aos fiéis católicos, o padre diz ouvir comentários constantes sobre o fim do mundo, sempre acompanhados por um certo temor pelo futuro.
“Isso remonta ao que Padre Cícero e Frei Damião diziam. Mas não é um discurso bíblico. Mas há também o sinal dos tempos. A natureza está chamando e o homem não está ouvindo”, comenta padre Robério.

Bate-papo Otaviano Pessoa [Gerente de Interpretação da Margem Equatorial e Bacias Interiores da Petrobras (RJ)]

A atual atividade sísmica da terra é realmente atípica ou apenas mais um caso corriqueiro para os especialistas?
Não. A atual atividade sísmica da Terra é normal. A ocorrência de sismos em locais como o Haiti, Chile e Turquia em um curto espaço de tempo pode ser considerado como uma grande coincidência. Os eventos ocorreram em diferentes contextos geológicos que não guardam entre si nenhuma relação. O fato de terem ocorrido em áreas povoadas e terem resultado em tragédias, aliado a uma extensa cobertura da mídia, transformou estes eventos em algo aparentemente anormal.

O planeta pode estar realmente querendo mandar um recado, um aviso? Qual seria?

O planeta pode, sim, estar nos mandando um recado, mas este recado tem sido enviado por milhões de anos. A mensagem é que a Terra pode ser considerada como um organismo vivo, dinâmico, que se move continuamente desde a sua formação, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Todos os dias, os sismógrafos registram dezenas a centenas de sismos ao redor do mundo, especialmente nas áreas sismicamente ativas, que são os limites entre as placas tectônicas, entre as quais se situam a Cordilheira dos Andes, o Caribe e a Indonésia, por exemplo. Nestas áreas, o movimento relativo das placas tectônicas, que pode chegar a alguns centímetros por ano, cria tensões elevadíssimas nas rochas, que se acumulam ao longo do tempo e que, ao serem liberadas , produzem uma energia tremenda, sob a forma de abalos sísmicos catastróficos, como estes que aconteceram recentemente. O fato de estarmos ouvindo este aviso com mais clareza agora deve-se, principalmente, a maior sensibilidade dos sismógrafos e aos atuais recursos de monitoração e comunicação, que são extremamente rápidos e possuem cobertura global.

Chegou a ser divulgado que o “maior” terremoto ainda estaria por vir em um futuro bem próximo. Há algum indício geológico que leve a crer nessa afirmação?
Não, não há indícios geológicos de que o maior terremoto da história ainda esteja por vir. Esta ideia está no imaginário coletivo, especialmente nas áreas onde grandes catástrofes já aconteceram. Na Califórnia, por exemplo, fala-se no “big one”, que varreria a cidade de São Francisco do mapa. É provável que venham a acontecer novos sismos de grande magnitude naquela área, simplesmente porque é uma zona tectonicamente ativa, mas não há nada que indique que eles terão uma magnitude maior do que os que já ocorreram no passado. Até porque a “magnitude” dos terremotos depende de vários fatores, geológicos e humanos. Geologicamente, ela pode ser medida pela quantidade de energia liberada no sismo, que é medida pela escala Richter, que por sua vez depende da profundidade onde ocorreu o abalo (hipocentro) e do estrago produzido na superfície (epicentro). Do ponto de vista humano, esta magnitude passa a ser medida pelos danos causados nas áreas habitadas e pelo número de vidas ceifadas na tragédia. Um abalo de 7 a 8 graus na escala Richter, que pode ser considerado de grande magnitude em uma área povoada, terá pouca importância se ocorrer em áreas desabitadas, como a Sibéria ou no Himalaia, por exemplo. Este mesmo abalo ocorrendo em áreas densamente povoadas, como é o caso do Chile e Haiti, causa tragédias terríveis e ganha proporções ainda maiores pela cobertura midiática que recebem. Grandes abalos, como os que ocorreram em Lisboa em 1755 (9,0 ER), Japão em 1923 (9,0 ER), Peru em 1970 (9,0 ER), México em 1985 (8,1 ER), Indonésia em 2004 (8,9 ER), estão entre os maiores abalos já registrados na história. Eles continuarão ocorrendo, intercalados com os milhões de pequenos abalos que ocorrerão no mesmo período e que só serão percebidos nos sismógrafos.

De alguma forma, a extração de petróleo no mundo poderia contribuir para uma acomodação maior e mais frequente dessas camadas do planeta?
Não. A atividade petrolífera está concentrada em bacias sedimentares que ocupam a parte mais superficial da crosta terrestre, em profundidades que podem chegar até 8000m (Golfo do México). Talvez até um pouco mais. Os terremotos são eventos produzidos a profundidades muito maiores, de dezenas de quilômetros, em áreas que não têm qualquer relação com a atividade petrolífera. Estes últimos abalos no Haiti, Chile, Turquia, por exemplo, deram-se em áreas sem qualquer atividade da indústria do petróleo.

Tribuna do Norte/Notícas Cristãs

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