sexta-feira, 5 de março de 2010

Aprender com o pecado de Sodoma

por Nicholas Kristof

As grandes pragas da humanidade, o analfabetismo, o tráfico de pessoas e a falta de cuidados médicos, entre outras, só podem ser combatidas se todos derem as mãos, sem preconceitos.

Uma grande parte dos grupos religiosos oferece ajuda desinteressadamente.

Durante a maior parte do século passado, quem tinha a postura de salvador do mundo eram sobretudo os democratas e os liberais. Em contrapartida, muitos republicanos e conservadores religiosos criticavam os programas governamentais de ajuda, a que o senador Jesse Helms chamava "dinheiro pelo cano abaixo".
Porém, ao longo da última década, essa divisão clara esbateu-se, de maneiras nem sempre perceptíveis ou compreensíveis para muita gente nos EUA. Os evangélicos tornaram-se os novos internacionalistas; promovem sucessivamente novos programas dos EUA contra a sida e a malária e fazem um trabalho louvável em sectores como o tráfico humano na Índia ou as violações em massa no Congo.
Questionário rápido: qual é a maior organização de auxílio e desenvolvimento internacionais sedeada nos EUA?
Não é a Save the Children nem a CARE, ambas excelentes organizações seculares. É a World Vision, uma organização cristã (com fortes bases evangélicas) sedeada em Seattle. Tem hoje 40 mil pessoas a trabalhar em quase 100 países. É mais gente do que tem a CARE, a Save the Children e a U. S. Agency for International Development todas juntas.
Um número crescente de cristãos conservadores tem vindo a reconhecer explicitamente e em forma de autocrítica que ser "pró-vida" tem de querer dizer mais do que condenar o aborto. O chefe da World Vision nos EUA, Richard Stearns, começa o seu fascinante livro "The Hole in Our Gospel" com um o relato de uma visita que fez há uma década ao Uganda, onde encontrou um órfão de 13 anos, com sida, que tinha a seu cargo a educação dos irmãos mais novos.
"O que mais me revoltou foi a resposta à pergunta: onde estava a igreja?", escreveu ele. "Naquele local, palco do que é talvez a maior crise humanitária dos nossos dias, onde estavam os seguidores de Jesus Cristo? Não havia dúvida que a Igreja devia estar a cuidar desses 'órfãos e viúvas nas suas tribulações' (Tiago 1:27). Não deveriam os púlpitos de todo o país ter-se inflamado com as exortações para se acorrer à linha da frente da compaixão? Como falhámos nós tão tragicamente, quando até as estrelas de rock e os actores de Hollywood parecem perceber?"
Stearns defende que os evangélicos andavam tão preocupados com a moralidade sexual e a relação pessoal com Deus que ignoraram os necessitados. E escreve dilacerantemente sobre ''uma igreja que tinha riqueza para construir santuários grandiosos, mas à qual faltava a vontade de construir escolas, hospitais e clínicas."
Numa passagem notável, Stearns cita o profeta Ezequiel, que diz que o grande pecado das gentes de Sodoma não era tanto serem promíscuas ou homossexuais como serem "arrogantes, comerem de mais e descuidados na sua riqueza; não ajudavam os pobres e os necessitados" (Ezequiel 16:49).
Imagine-se se as leis contra a sodomia podiam ser utilizadas para castigar os ricos avarentos e descuidados!
Nos EUA há quem parta do princípio de que os grupos religiosos oferecem auxílio para conseguirem converter novos fiéis. Isso não é verdade. Hoje em dia, grupos como a World Vision proíbem que a ajuda seja utilizada para atrair seja quem for para uma confissão religiosa.
Alguns liberais estão a lutar para pôr termo à prática já antiga (é um mito que tinha começado com o presidente George W. Bush) de canalizar a ajuda dos EUA através de organizações religiosas. Essa mudança seria uma catástrofe. No Haiti, mais de metade da distribuição de alimentos passa por grupos religiosos como a World Vision, que têm montadas no terreno as indispensáveis redes de assistência. Não podemos transformar os haitianos em danos colaterais das nossas guerras culturais.
O problema de raiz está num preconceito liberal contra as organizações religiosas. Os que mais as criticam dão em geral muito menos dinheiro que os evangélicos. Também é menos provável que os vejamos a passar férias a fazer voluntariado, por exemplo numa escola ou numa clínica do Ruanda.
Se os liberais seculares conseguirem descartar alguma da sua sobranceria e se os evangélicos conseguirem eliminar alguma da sua beatice hipócrita, talvez seja possível que consigamos combater com mais eficácia os inimigos da humanidade, como o analfabetismo, o tráfico de pessoas e as mortes por parto.

i/The New York Times/Notícias Cristãs

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