segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Presidente da WACC aponta para a “pornografia do desastre”

A cobertura realizada por grandes redes de televisão no terremoto que arrasou Porto Príncipe já tem estudos que apontam para a “pornografia do desastre”. Empresas enviaram ao Haiti repórteres médicos, com o propósito de mostrar a miséria humana ao mundo, sem respeitar a dignidade dos que perderam parentes no abalo sísmico. A análise é do presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC), Dennis Smith, que participou em Porto Alegre, de 3 a 7 de fevereiro, do Mutirão da Comunicação, evento organizado por organismos católicos e que reuniu 2 mil participantes.
A cobertura realizada por grandes redes de televisão no terremoto que arrasou Porto Príncipe já tem estudos que apontam para a “pornografia do desastre”. Empresas enviaram ao Haiti repórteres médicos, com o propósito de mostrar a miséria humana ao mundo, sem respeitar a dignidade dos que perderam parentes no abalo sísmico.
A análise é do presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC), Dennis Smith, que participou em Porto Alegre, de 3 a 7 de fevereiro, do Mutirão da Comunicação, evento organizado por organismos católicos e que reuniu 2 mil participantes.
Dennis desconhece outra denominação que dá tanta importância ao setor como o faz a Igreja Católica. Ele aplaude iniciativas como o Mutirão da Comunicação, mas entende que o evento “seria ainda mais rico se incorporasse representantes de igrejas protestantes locais, de modo especial comunicadores.”
Na entrevista a seguir, Dennis fala dos desafios da WACC, dos grandes eixos de atuação definidos pela organização, da ajuda ao Haiti e da diminuição de recursos na área da comunicação.

ALC – Quais são os desafios que a WACC têm pela frente?

Dennis Smith – A WACC tem desafios internos e externos. Como presidente da organização, tenho que ocupar-me de animar os processos para dentro, assim que eles não afetem nossa capacidade de fazer as projeções para fora.

ALC- Podes mencionar esses desafios internos?

Dennis Smith – Nos últimos três anos tivemos fortes mudanças, desde a transferência da sede de Londres para Toronto até a implantação de um modelo programático, a partir de três eixos principais. Isso exige muita energia e criatividade de parte da Junta Diretiva como da equipe de trabalho.

ALC – Quantos integram a equipe em Toronto?

Dennis Smith – São 15 colaboradores. Em meio à transição conseguimos lograr a maior projeção até agora com o projeto de monitoramento das mídias. Colaborou para tanto a parceria com a Unifam (organismo voltado ao bem-estar da família). O monitoramento da mídia em 2009 aconteceu em 130 países, uma presença jamais alcançada.

ALC – Quando serão divulgados os resultados do monitoramento da mídia de 2009?

Dennis Smith – Já temos os resultados preliminares, porque queremos divulgá-los para o encontro de Beiing +15, em março. Agora, o resultado completo sairá em novembro.

ALC – Quais são, então, os desafios internos da WACC?

Dennis Smith – São os mesmos desafios de qualquer instituição com abrangência internacional: fazer mais trabalho com equipe menor. A WACC é um caso especial.

ALC – Por quê?

Dennis Smith – Porque ela é uma associação de membros, profissionais da comunicação e de instituições. Temos de tratar de criar um sentido de movimento, de pertença para toda a membresia. Como presidente, tenho como meta assegurar para que não haja brechas entre a WACC global e a WACC das diferentes regiões (são oito regiões – Ásia, Pacífico, África, Oriente Médio, Europa, América do Norte, Caribe e América Latina).

ALC – Como se dá essa intersecção do trabalho conjunto entre a WACC global e as seccionais regionais da WACC?

Dennis Smith – Trago um exemplo. O Conselho de Igrejas de Gana queria buscar financiamento e apoio técnico para combater o estigma da AIDS, utilizando meios populares e de denominações. Fizemos um projeto conjunto e o apresentamos ao governo britânico. Não recordo os números exatos, mas conseguimos angariar pelo menos meio milhão de dólares, para três anos.

Para evitar qualquer tipo de brecha, estamos re-imaginando como a WACC global poderá trabalhar com as regiões, porque elas têm diferentes níveis de recursos e de experiências. Um dos nossos projetos, ainda na etapa do sonho, é o de animar as regiões a criarem espaços de intercâmbio de recursos entre elas.

ALC – Quais são os projetos preferenciais na agenda da WACC?

Dennis Smith – Quando implementamos o novo modelo programático, para seis anos, identificamos eixos programáticos, que são: justiça de gênero, comunicação e pobreza, comunicação e AIDS, direitos à comunicação, comunicação e relações ecumênicas, comunicação e cultura. Com esses eixos tratamos de animar os princípios cristãos da comunicação. Agora, é preciso reinterpretar esses princípios à luz da conjuntura atual.

ALC – A WACC tem programas de capacitação?

Dennis Smith – Nossos membros fazem trabalho de capacitação. A comunicação tem que gerar participação, tem que construir comunidade, falar profeticamente frente aos que detêm o poder, celebrar e defender a diversidade cultural. Implementar esses princípios hoje é diferente do que há 15 anos. O mundo mudou.

ALC – Por que diminuem os recursos de agências doadoras para a área da comunicação?

Dennis Smith – A crise econômica mundial é real, não é piada, não é uma invenção. As agências ecumênicas e igrejas históricas estão diminuindo os seus orçamentos e priorizando recursos para ajudas de emergência e trabalho de desenvolvimento nos países mais pobres. Para a maioria das agência a comunicação já não é prioridade.

ALC – Mas seguidamente se lê manifestações de instituições frisando que a comunicação é importante.

Dennis Smith – A WACC também o acha e entende-a como um dos eixos fundamentais, pois ela constrói participação cidadã, identidade, uma vez que a sociedade de consumo leva à perda da mesma, e fiscaliza as atividades de governos e de autoridades locais.

ALC – A crise que o mundo enfrenta não é apenas no campo econômico, mas também na área energética, do meio ambiente...

Dennis Smith – Cada uma dessas crises tem um componente de comunicação social. Por isso iniciamos um programa de Comunicação, Justiça e Meio Ambiente. O desafio que temos é duplo: fortalecer nossa relação com nossos parceiros históricos – principalmente agências ecumênicas européias e norte-americanas –, construir novas relações com governos e fundações, para diversificar nossas fontes de recursos.

ALC – Só o que arrolas são tarefas gigantescas para uma organização que tem apenas 15 colaboradores em sua sede.

WACC – Por isso mesmo trabalhamos em aliança com diferentes sócios, segundo os diferentes eixos programáticos. Outra estratégia política que o mundo de hoje exige é de não trabalhar individualmente, mas em alianças estratégicas.

ALC – Como avalias o Mutirão da Comunicação, no qual apresentaste seminário sobre comunicação e ecumenismo?

Dennis Smith – O que me chama a atenção é a importância que a Igreja Católica outorga ao tema da comunicação social. Não conheço nenhuma outra igreja que dá a mesma importância, no mundo de hoje. O desafio é aproveitar esse tipo de encontro para também conhecer as experiências e construir projetos em comum com outras tradições religiosas, respeitando o especificamente católico.

Uma coisa que me agrada é que há boa participação de bispos da região, que estão aí como qualquer outra pessoa. Cria-se um ambiente lindo de intercâmbio. Seria ainda mais rico se o Mutirão incorporasse representantes de igrejas protestantes locais, de modo especial comunicadores. Também para as atividades protocolares, convidar líderes protestantes, a comunidade muçulmana, judia... Seria um testemunho de unidade frente aos desafios comunicacionais de hoje.

ALC – Quais proposições saíram do Mutirão motivadas pelo seminário que apresentaste?

Dennis Smith - Uma sugestão que apareceu no seminário sobre diálogo inter-reliogoso e ecumênico é a de dar importância, em nossos meios locais, a comentários de porta-vozes religiosos sobre qualquer acontecimento público, de não buscar apenas a versão da sua igreja, mas também de outras igrejas e de outras comunidades religiosas. O mesmo vale em campanhas de incidência pública, também procurar construí-las de maneira ecumênica, em torno de objetivos comuns.

A América Latina é uma região majoritariamente cristã. Até mesmo as espiritualidades ancestrais que sobreviveram incorporaram certos elementos da liturgia cristã em suas práticas. Mas a gente tem pouco conhecimento de religiões como expressão da riqueza da cultura humana. Seria importante introduzir cápsulas informativas do que é, por exemplo, o Islã, tomar tempo e prever recursos para mostrar ao povo quais são as características, a história, o rito e as tradições dessas manifestações religiosas.

ALC – O que a WACC arrola como desafios comunicacionais do momento?

Dennis Smith – O direito à comunicação, o acesso cidadão aos meios, o fortalecimento de meios públicos, a ética e comunicação, comunicação como espaço de construção de valores e de identidade.

ALC – Que tipo de ajuda uma organização como a WACC pode prestar em emergências, como o terremoto ocorrido no Haiti?

Dennis Smith – No mesmo dia do terremoto no Haiti estabelecemos contato com nossos sócios na região Caribe, primeiro para tomar informações sobre eles e, segundo, enviamos dois aparelhos de telefones ligados a satélite aos nossos membros haitianos, para captar informação. Terceiro, montamos campanha e a divulgamos na página da WACC na internet, com o intuito de angariar dinheiro para reconstruir a infra- estrutura de meios comunicativos e imprensa alternativa no Haiti.

O presidente da WACC região Caribe é haitiano. Também constituímos campanha permanente de oração pelo Haiti, animando o intercâmbio de recursos litúrgicos, para que pessoas de fé de diferentes regiões possam ter informações e orar pelo povo haitiano.

ALC – Qual a avaliação que fazes da cobertura da imprensa do terremoto no Haiti?

Dennis Smith – Já existem estudos a respeito e alguns estão nominando-a de “pornografia do desastre”, dada a forma da representação das pessoas, a ênfase nos saques, as instâncias de conflito social, desconhecendo por completo as iniciativas que acontecem desde as bases para tratar de responder ao desastre. Outro elemento, este empregado especialmente pelas grandes cadeias, como a CNN, de enviar um médico como câmara e, assim, buscar o caso mais dramático para mostrá-lo na televisão. São matérias de três minutos, que custam milhares de dólares, que se aproveitam da desgraça das pessoas. O médico-jornalista sai-se como o grande herói, mas não dá nenhuma contribuição para aumentar a infra-estrutura de saúde pública no Haiti.

Por outro lado, vários jornalistas e comentaristas tomaram o cuidado de colocar este desastre no seu contexto histórico, que demonstraram, com um panorama histórico, que a realidade do Haiti de hoje tem relações com a revolução haitiana de 1804. O Haiti foi a primeira república da região e os EUA e a Europa não perdoaram a ousadia de um povo negro escravo de declarar-se livre e independente. Por isso a história do endividamento com a França, com os EUA, as várias invasões militares que o pequeno país caribenho sofreu.

ALC – Outra invasão estadunidense parece estar em andamento no Haiti, ignorando as tropas de paz enviadas pela ONU...

Dennis Smith – O tempo dirá se isso é assim.

ALC/Notícias Cristãs

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