terça-feira, 20 de outubro de 2009

Saramago provoca um novo debate sobre a fé

“Saramago não é um ateu tranquilo e indiferente. Ele luta contra Deus. Há algo que o move, como se não estivesse seguro do próprio ateísmo. Homens profundos como Saramago ajudam o homem de fé a estudar mais e fortalecer sua crença.” Esta é a reflexão do frade franciscano Aloísio Fragoso, ao defender que as declarações do escritor português José Saramago contra a Bíblia e as religiões judaico-cristãs não fazem mal para o cristianismo, mas servem como ponto de partida para a reflexão.

“As afirmações (do escritor) não têm repercussão no meio religioso, mas sim entre os intelectuais. Elas não mexem com as convicções de quem tem fé. E, para quem já não tem, também não muda muito”, acredita frei Aloísio, leitor do autor português.

O escritor José Saramago, ateu declarado, volta a colocar contra si setores do cristianismo com a publicação de Caim, seu livro mais recente, que chega às livrarias esta semana. A obra reconta a história de Caim, mas não se limita a narrar o episódio da morte de Abel, segue adiante, e conduz o personagem por diversas passagens do Velho Testamento, levando-o a agir em cenas nas quais não é citado, como na provação de Abraão, na condenação de Sodoma e Gomorra, no episódio do bezerro de ouro de Moisés, na casa de Jó e na Noé e a Arca, quando ele muda o desfecho clássico da narrativa.

O escritor aproveitou o lançamento da obra, na Bienal do Livro de Frankfurt, para voltar a criticar seu maior desafeto, Deus. Nas entrevistas que concedeu durante o evento, o autor bate severamente em toda a tradição religiosa ocidental. “A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana. É um livro sem o qual os seres humanos seriam provavelmente melhores”, declarou o autor à agência de notícias AFP. Ele afirmou ainda que o Deus da Bíblia é cruel, invejoso e insuportável.

Reações às declarações espocaram de todos os lados. Religiosos católicos, protestantes e judaicos trataram de mostrar um outro lado da leitura bíblica, que permite interpretações menos catastróficas – ou apocalípticas – que as traçadas pelo escritor português. Além disso, escritores que trazem outras visões da Bíblia também apontam os equívocos de Saramago. O pernambucano Raimundo Carrero, por exemplo, que também utiliza trechos das Escrituras como ponto de partida para a criação literária, vê dois problemas nas declarações do colega português.

O primeiro diz respeito ao que ele chama de visão extremamente superficial dos textos sagrados. “O antigo Testamento conta a queda do homem após o pecado, então, não havia como revelar bons costumes. A segunda parte, que narra a presença de Cristo entre nós, refere-se à redenção do homem, quando ele renasce e vai para a luz,” pontua Carrero. O segundo problema que ele percebe na interpretação de Saramago está ligado às convicções políticas do autor lusitano.

“Ele ainda pensa de acordo com o programa do partido comunista da primeira metade do século 20, motivado por uma leitura equivocada de Nietzsche. A partir dos anos 1960 e 1970, o próprio partido reviu sua posição, depois que a igreja o fez ver que Jesus também tinha um lado humano, que o colocava ao lado dos oprimidos, dimensão claramente expressa na Teologia da Libertação. Saramago perdeu o bonde da história e não conseguiu evoluir”, contextualiza Carrero. O escritor pernambucano ainda lembra que, em sua declarações, Saramago ignora que a Bíblia, acentuadamente o Novo Testamento, traz uma enorme mensagem de esperança, caminho da transcendência do homem para Deus.

O reverendo Miguel Cox, pastor da Igreja Episcopal Carismática, afirma que as declarações de Saramago são tão ridículas que nem merecem ser comentadas.

“Há vários séculos de história para nos mostrar todas as coisas boas da Bíblia e provar que o escritor está errado”, destaca. O pastor cita como exemplo os depoimentos encontrados no livro Sozinha, do reverendo Miguel Rizzo Júnior. “A obra conta várias histórias de superação, de pessoas que mudaram suas vidas e de suas comunidades, apenas a partir da leitura da Bíblia, sem intervenção religiosa.”

JC ONLINE

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