quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mudança de hábitos pode afectar gravemente o planeta


A transformação verificada na dieta das sociedades desenvolvidas, hoje baseada na carne e derivados, pode ter "consequências catastróficas" no planeta, ao nível da escassez de recursos como a água e as florestas, alerta o antropólogo José Manuel Sobral.

"Os impactos da mudança alimentar por que está a passar o mundo são brutais", adverte o especialista, recordando a evolução de uma dieta de origem vegetal para a carne e produtos lácteos em grande escala.

Para produzir carne de vaca é necessário cultivar outros alimentos, como cereais para as rações, e muita água, explica.

"A maior parte da água do planeta (70 por cento) é para produção na agricultura irrigada", afirma o antropólogo, segundo o qual são necessários 5000 litros de água para produzir a alimentação diária de uma pessoa.

A alimentação é uma necessidade básica dos seres humanos, mas os hábitos das sociedades modernas acabam por ter "implicações enormes" na produção dos alimentos e no consumo de água.

Para um quilo de arroz, tal como é produzido em Portugal e na Ásia, são precisos 3000 litros de água, enquanto um quilo de "carne de bife" exige 15 000 litros de água, acrescenta.

Por outro lado, agrava-se a destruição da floresta para criar pastagens de gado, além dos problemas que vão sendo criados com a exploração de madeira e as alterações climáticas, afirma.

"Toda a História da Humanidade depende da alimentação. A sociedade só se desenvolveu quando evoluiu da comunidade recolectora para a produção, quer ao nível da agricultura, quer da pastorícia", refere.

"Sem essas transformações, os humanos não teriam chegado aos mais de seis biliões que hoje existem. A alimentação é tão importante que a encontramos intrincada na vida religiosa, por exemplo", diz.

Uma boa parte das religiões do mundo implica restrições alimentares como forma de purificação, desde o cristianismo, ao islamismo, passando pelo hinduísmo.

Ao longo da História, a alimentação tem estado também ligada à forma do corpo e aos ideais de época. Se hoje se exalta uma imagem de magreza que levou a problemas de anorexia nas últimas décadas, na sociedade europeia do passado uma pessoa gorda ou obesa era vista como alguém pertencente a um grupo poderoso.

Presentemente, "os problemas fundamentais que se colocam mundialmente têm a ver com carência, com fome", indica, referindo que o problema alimentar é uma das principais razões das migrações, especialmente de África, do subcontinente indiano e da América Latina.

"Há uma enorme desigualdade no acesso aos alimentos", denuncia José Manuel Sobral, sublinhando que também no passado a fome e a subnutrição foram uma preocupação para grande parte da população, incluindo a europeia.

"A fome atingindo milhões de pessoas não é algo desconhecido na Europa até ao século XIX. Os cenários que hoje surgem no Darfur e outras zonas africanas não são desconhecidos ao nível da história europeia", ressalta.

DN CIENCIA

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