quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Deus segundo Crumb


Mestre do underground lança versão surpreendentemente fiel do bíblico do Gênesis.

E Robert Crumb – Deus subversivo dos quadrinhos, papa da cultura underground dos comics americanos, cartunista cult e iconoclasta de Mr. Natural e Fritz the Cat – decidiu criar os céus, a terra, as plantas, os e o homem.
Depois de quatro anos dedicado ao que definiu como seu magnum opus (pelo menos no volume), sua aguardada versão ilustrada dos 50 capítulos do Gênesis bíblico terá lançamento simultâneo neste mês em 12 países, incluindo o – um livrão de 216 páginas, com capa dura, na edição da Conrad, em pré-venda no site oficial da editora (www.lojaconrad.com.br) por R$ 49,90.
O sarcástico e sexualmente obcecado Crumb, ex-consumidor de LSD e de anfetaminas, agora numa parceria com Deus na história da criação do Universo, da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, passando pela Arca de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, até a morte de José no Egito? Seus seguidores que esperarem por uma adaptação livre do Gênesis, com cenas de explícito e legendas trash e escrachadas ficarão certamente decepcionados.
http://michaelmaurer.net/images/rcrumb.jpgA singularidade artística – e a subversão – de sua obra está exatamente em sua completa submissão ao texto antigo e original, sucessivamente reescrito, modificado e modernizado ao longo dos tempos. O autor mergulhou numa profunda pesquisa histórica e pictórica do cenário antes de começar a rabiscar os traços do livro. Suas principais fontes escritas foram a Versão da Bíblia do Rei James (do século 17) e a recente tradução The Five Books of Moses (2004), de Robert Alter, crítico literário americano e professor da Universidade Berkeley (EUA). Crumb leu também várias adaptações já feitas da Bíblia para o formato de HQ e se decepcionou.
– São todas ruins. Algumas são bem desenhadas, mas os diálogos são inventados. É ficção, não o texto original – disse na entrevista coletiva à imprensa internacional organizada na semana passada, no Centro Georges Pompidou, em Paris, da qual participou Zero Hora.
Seu editor francês, Jean-Luc Fromental, acrescentou:
– Todos aqueles que amam a HQ vão se dar conta de que pela primeira vez todo comentário, interpretação e exegese passa pelo . É um trabalho mudo. É subversivo porque nos remete à Bíblia de uma forma nunca feita, não religiosa, mas como um texto fundamental, de nossas origens.
Sentado ao seu lado, o autor concordou com a entusiasta explicação do editor:
– That’s beautiful! (Isso é lindo) – exclamou, provocando risos na sala.
Crumb diz não ter pretendido satirizar a Bíblia nem torná-la engraçada.
– Minha intenção foi a de iluminar o texto, lhe dar outra dimensão, ilustrando tudo o que está nele, cada pequeno detalhe, para que as pessoas realmente saibam o que contém. O mais importante para mim foi ser fiel ao texto. Muitas pessoas ficarão surpresas com as histórias do Gênesis.


“Para mim, não é um texto sagrado. É um mito” - Ex-católico, Crumb se define como gnóstico

Silhueta delgada, barba grisalha e espessos óculos de grau, Robert Crumb apareceu na sala subterrânea do Centro Georges Pompidou, em Paris, para o encontro marcado com mais de uma centena de jornalistas internacionais vestindo um colete de lã, paletó e sandálias de couro e meias. Normalmente avesso a entrevistas, disparou logo de início:
– Já não basta ter passado todo esse trabalhando na Bíblia, agora vou ter de seguir falando dela – disse, já prevendo a turnê de lançamento de sua versão ilustrada do Gênesis nos Estados Unidos, ao longo deste mês.
http://www.granadablogs.com/pateandoelmundo/wp-content/uploads/2009/07/12.jpgDiferentemente de seus tempos da juventude, em que, como ele mesmo diz, sob o efeito das drogas podia produzir um álbum de HQ em um mês, Crumb, hoje aos 66 anos, é um cartunista compulsivo pelo detalhe do desenho. Para finalizar as mais de 200 páginas de seu Gênesis, muitas vezes repetiu o mesmo desenho três ou quatro vezes até alcançar a imagem desejada.
– Me tornei obsessivo nos detalhes. Quando comecei o livro, não sabia que seria tão longo. Ao cabo de 30 páginas, comecei a me perguntar se o texto valia todo esse trabalho. Mas hoje posso desenhar um camelo com a maior facilidade – contou, rindo.
Mesmo que tenha cogitado representar Deus como uma mulher negra, acabou desenhando o Todo-Poderoso em sua imagem tradicional de “velho patriarca de barba branca”.
– Decidi fazer nessa imagem familiar, porque tive um sonho muito forte em que vi Deus, e ele aparecia assim no meu sonho. Foi um dos mais fortes que já tive – confessou.
Educado no cristianismo, Crumb, no entanto, não é crente. Hoje, se define como “gnóstico”.
– Acredito que há uma força superior, mas que é um mistério. É óbvio que há algo maior do que nós, gente – disse à atenta audiência.
Sobre o texto bíblico, revela seu espanto pelo fato de pessoas acreditarem se tratar da “palavra de Deus” e não um produto do homem.
– É incrível que milhares de pessoas levem esse texto a sério. Para mim, não é um texto sagrado, mas um mito com muitas histórias e imagens vigorosas – definiu.
Repleto de violência, estupros, assassinatos, incestos, traições, o Gênesis, segundo Crumb, não pode ser considerado um guia moral.
– Há uma moralidade primitiva. E em certas partes não se vê nenhuma moral.
Se a sexualidade explícita está ausente de sua obra, não faltam mulheres voluptuosas de seios fartos, mas, sobretudo, expostas em papéis relevantes no enredo. Crumb, frequentemente atacado e repreendido pelas mulheres, teria se tornado feminista?
– As histórias matriarcais no livro são marcantes. Há fortes personagens femininos. Eu fiquei surpreso ao descobrir isso. Foi algo bastante interessante.

Zero Hora/Notícias Cristãs

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