quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Telecatch nos templos do capitalismo como religião

Silvio Mieli
O Ministério Público acusou dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) de aplicarem recursos oriundos das doações de fiéis na compra de bens registrados em nome desses mesmos dirigentes. A denúncia desencadeou mais uma “guerra santa” entre Rede Globo e Rede . Em 1995 vimos um primeiro capítulo dessa cruzada. Na ocasião, um pastor desferiu um pontapé numa estátua de Nossa Senhora da Aparecida. Foi a senha para a comoção nacional. As mesmas denúncias de desvios das contribuições dos fiéis circularam, os pastores choraram ao e alegaram perseguição religiosa.

A primeira questão que nos assalta é fruto da perplexidade. Como a sociedade brasileira permitiu que as organizações Globo e Universal, desmesuradas até nos nomes, penetrassem tão profundamente na nossa vida cotidiana?

A segunda indagação, mais complexa e ligada à primeira, tenta entender o que move, ou comove essa multidão, plugada nessa espécie de universo paralelo que, em ambos os casos, assume uma dimensão religiosa, sagrada, elegendo entidades beatificadas pela audiência global de um lado, ou atraindo incautos para as “correntes dos empresários” de outro?

Embora ambos os conglomerados atuem no mesmo mercado da capitalização dos corpos, das almas e do imaginário, existem diferenças importantes nos dispositivos de captura, que talvez ajudem a explicar as recentes cenas de telecatch (luta livre) entre as redes — o último round envolveu a compra do histórico documentário “Muito Além do Cidadão Kane" (1993) de Simon Hartog pela emissora do bispo Edir Macedo.

A Globo sempre preferiu utilizar uma espécie de anulação das diferença culturais, através de um arsenal estético homogêneo, compacto, plastificado, auto-referente, marcado por uma língua única.

Já os pentecostais e neo-pentecostais, investiram em outra abordagem. Na São Paulo do início dos anos 80, os migrantes que chegavam de ônibus no antigo terminal rodoviário do Glicério eram recebidos por obreiros da “Igreja Pentecostal Deus é Amor”, cujo público alvo era (e ainda é) composto pelas classes C e D. O voluntário da igreja fazia uma abordagem meticulosa e milhares de recém-chegados eram cooptados, até pela falta de perspectivas mais alentadoras. Em seu templo principal na baixada do Glicério, que hoje assumiu proporções épicas, havia um painel luminoso que piscava o nome das emissoras de rádio que transmitiam ao vivo as homilias do pastor Davi Miranda, fundador da igreja (que conta hoje com 520 templos, só na cidade de São Paulo). Guardadas as devidas proporções, foi o que aconteceu com as demais igrejas neo-pentecostais, que diversificariam seus públicos e ampliariam a estrutura deste “franchising da fé”, sempre através da mesma prática da ocupação dos vazios existenciais, das carências crônicas e aproveitando a imensa falta de espaços públicos para a socialização básica.

Entretanto, a partir do surgimento da Igreja Universal, passamos para um outro patamar. Seus empresários perceberam para onde o vento do espírito do capitalismo estava soprando. Enquanto a Globo insistia em rituais como o “show da vida”, os neo-pentecostais jogavam pesado no “show da fé”.

Eu vi um na

Os modelos global e universal foram responsáveis, em fases diferentes, pela introdução no Brasil do capitalismo enquanto valor de exposição. Além do valor de uso e do valor de troca, a briga entre os gigantes evidencia entre nós este terceiro elemento típico da sociedade da informação e do espetáculo, o valor de exposição, sem o qual é impossível entender o arrastão que o sistema comunicacional monopolista operou no país.

Enquanto a Globo fisgava o espectador pelo seu “padrão de qualidade”, a partir do qual a ascensão social era um valor mostrado sempre indiretamente através das novelas, a Universal/Record capturava o fiel/telespectador pelo dispositivo imediato do culto ao dinheiro, sem intermediários e sem rodeios. Em ambos os casos convergimos para o que Walter Benjamin chamou de capitalismo como um fenômeno essencialmente religioso.

A Rede Globo representou a fase de acumulação primitiva do capital de exposição, principalmente nos anos 1970 e 1980. O filme Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues, mostrou muito bem como a televisão operou essa integração nacional, deslocando o país para uma dimensão paralela da realidade. Só que a partir dos anos 90, quando o das grandes redes de televisão começou a se desarticular, inclusive pelo impacto da internet, entram em cena os magnatas neo-pentecostais tupiniquins, complicando ainda mais as intenções de manutenção da hegemonia global.
Walter Benjamin dizia que “o capitalismo é uma religião puramente cultual. Nada nele tem significado que não esteja em relação imediata com o culto, já que ele não tem dogma específico nem teologia”. É exatamente nesse sentido que se configuraram as pretensões comunciacionais da Igreja Universal, estabelecendo entre nós a fase de consolidação do capitalismo como religião.

Um modelo próprio

Ainda que o modelo do tele-evangelismo estadunidense tenha servido de inspiração inicial, o que se implantou por aqui não foi o estilo da ética protestante e o espírito capitalista, mas um modelo próprio, muito mais avançado e arrojado, que hoje é exportado para o mundo inteiro. Antes nos vangloriávamos de saber que a novela “Escrava Isaura” fora dublada em chinês. Agora temos o kit Universal completo para exportação, composto de templos neo-clássicos, que já vem com seus respectivos pastores expulsadores de demônios.

No Brasil, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, esta fase do capitalismo como religião encontrou na televisão a sua dimensão, digamos, mais literal. E o arrastão continuou, porque o valor de exposição do capitalismo como religião opera por um mecanismo perverso de separação. Subtrai coisas, lugares, pessoas, culturas, valores, hábitos ao uso comum e as transfere para uma esfera separada, a da pura exposição (espetáculo).

Enquanto a Globo continua tentando se desvencilhar do passado, sem no entanto mudar a ética e a estética do seu discurso visual, a Universal, apesar de clonar o modelo de jornalismo e a teledramaturgia da Globo, já entendeu que entramos numa era do consumidor-produtor. A própria emissora da Igreja, a TV Record, foi comprada com o dinheiro dos fiéis. São eles mesmos que atuam em muitos programas, principalmente através dos testemunhos, e assim a roda da fortuna gira, tendo como matéria-prima os próprios telespectadores, capital humano que mantém a estrutura funcionando.

No “A Igreja Universal e seus demônios”, o antropólogo Ronaldo de Andrade conclui, em relação à Universal, “que a debilidade dos vínculos com uma tradição religiosa e a simplicidade do discurso garantiram-lhe maior aderência a um mundo em mudança. Enquanto o catolicismo debatia-se teologicamente sobre como realizar uma missa pela televisão, a Igreja Universal, valendo-se cada vez mais da linguagem televisiva, penetrou nas casas, transmitindo, via satélite, suas , curas e bênçãos. Sustentando exorcismos e milagres sobre uma estrutura comercial eficiente, a Igreja Universal dilui noções como o arcaico e o moderno”.

Talvez seja doloroso, mas é necessário constatar que, neste contexto, a Globo é a modernidade e a Universal é a pós-modernidade do capitalismo como religião.

- Silvio Mieli é jornalista e professor da faculdade de Comunicação e Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC - SP).
http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/cultura/telecatch-nos-templos-do-capitalismo-como-religiao

Fonte: NC

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