segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Novelas ditam regras nas famílias do Brasil

Estudo revela que ocorrem mais divórcios e menos nascimentos

Rio - Não bastassem as Ritinhas, Dafnes, Norminhas e Mayas da vida real, que levam os cortes de , bordões e roupas das personagens de para as ruas, uma pesquisa revelou que a influência das novelas sobre as famílias brasileiras vai muito além. Inconscientemente, as mulheres incorporam também o comportamento dessas heroínas em sua própria vida, absorvendo valores e mudando atitudes, sobretudo com relação a casamento e família. Estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cruzando dados do IBGE com informações da Rede Globo, concluiu que o índice de divórcios no cresceu na proporção em que o sinal da emissora se espalhava pelo Brasil. O mesmo aconteceu com os índices de fertilidade, que diminuíram drasticamente.
Segundo as pesquisas, intituladas ‘Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil’ e ‘Televisão e Divórcio: Evidências de Novelas Brasileiras’, em 1970 só 0,1% do Brasil recebia o sinal da Globo, índice que subiu para 35,5% na década de 80, 86% em 1991 e 98% nos anos 2000. Neste período, o número de divórcios cresceu de 3,3 a cada 100 casamentos para 17,7 e a taxa de fertilidade caiu 60%. Para chegar à conclusão de que a mudança se deve à influência das novelas, pesquisadores analisaram 115 folhetins de 19h e 20h da Globo, que foram ao ar de 1965 a 1999. Do total, 72% das protagonistas femininas não tinham filhos, 30% eram infiéis e 20%, divorciadas ou separadas.
Especialistas em telenovelas explicam que a influência das tramas nas brasileiras é inconsciente: “Ela se dá porque a telenovela acompanha e às vezes vai além de tendências da sociedade. De tanto ver que o cenário é de uma família pequena, a pessoa acaba pensando ‘olha, é muito difícil a responsabilidade de criar muitos filhos’. A novela tornou-se para a mulher brasileira um programa legítimo em que elas confiam”, explica a pesquisadora Maria Immacolata Vassallo Lopes, do Centro do Estudo de Telenovela da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Para a antropóloga Miriam Goldenberg, as mulheres veem nas heroínas dos folhetins um modelo: “O comportamento que se reproduz na novela é o de mulheres independentes, que se tornam modelo a ser imitado. Se elas aparecem nas novelas com menos filhos, trabalhando, com maridos mais jovens, com vários parceiros, isso vira uma coisa que as pessoas não só aceitam como reproduzem”.
A pesquisa do BID conclui que são as mais pobres que mais modificaram o comportamento. Moradora do Santa Marta, Leomar da Silva, 23 anos, divorciada e com um filho, garante que, não fosse pelas tramas da Globo, sua vida seria diferente: “Elas mostram o dia a dia de pessoas com quem não teríamos contato se não fosse pela TV. A novela coloca a gente em contato com o mundo. Talvez por isso eu seja tão diferente das mulheres de antigamente, não tenho tantos filhos e corro atrás da minha como as heroínas”.

Para autor, heroínas só refletem a sociedade
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007, 98,42% dos lares brasileiros têm pelo menos uma TV. Aos 45 anos, a dona de casa Gracilange da Silva Ferreira está fora das estatísticas. Mãe de 6 filhos, ela não tem televisão. Mas não crê que sua alta taxa de fertilidade tenha a ver com o fato de não assistir às tramas globais. E brinca com a velha : “Não dizem que quem não tem televisão tem mais para fazer filho?”. Já sua filha mais velha, Graciele Gonçalves, 28, adora novelas, tem 2 filhos e não quer outros: “As novelas influenciam muito. Às vezes a gente assiste e pensa ‘quero ser igual a ela (a protagonista)’.”
Autor de ‘Caras & Bocas’, que vai ao ar às 19h, na Rede Globo, Walcyr Carrasco discorda da pesquisa. Para ele, as protagonistas independentes são reflexo da sociedade e não o contrário: “O mundo vem mudando radicalmente em termos de hábitos de comportamento. Vários fatores levam a isso, como a independência econômica da mulher. A da mulher conformada com um casamento difícil porque não tem meios de se sustentar sozinha está em extinção”. Carrasco conta que muitas vezes é o telespectador que muda seu roteiro: “Quando eles não gostam da atitude de um personagem, dizem claramente. As pessoas não são fantoches”.
Especialista em história da teledramaturgia, Silvia Oroz concorda em parte com o autor: “A mudança de comportamento é um processo lento, mas a novela é uma forma integradora da cultura popular que tem esse objetivo. A novela tem o poder da intimidade, ela consegue moldar qualquer coisa, desde que o público queira. Não é uma perspectiva autoritária”.

Dia Online/NC

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.