segunda-feira, 27 de julho de 2009

Religião agrega tribos da fé


Quando a Igreja Católica surgiu, no primeiro século depois de Cristo, a religião era vista de uma forma muito conservadora pela sociedade. No Brasil, a tradição da fé católica perdurou e, até o século XIX, era a única reconhecida oficialmente. Naquela época, quem não era católico não podia trabalhar para o Estado. Entretanto, os outros cultos eram permitidos, desde que não fossem praticados dentro de edificações cujas arquiteturas lembrassem uma igreja.

Atualmente, com o crescimento dos evangélicos no país, surgem templos para as mais diferentes tribos urbanas, que vão dos adeptos do heavy metal aos lutadores de jiu jitsu e surfistas. São igrejas voltadas para públicos que se diferenciam pelo visual, como tatuagens e o uso de piercings. Uma aparência que, muitas vezes, incomoda o conservadorismo presente no catolicismo e nas tradicionais denominações evangélicas.

De acordo com a antropóloga e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Léa Freitas Perez, o surgimento dessas novas igrejas é uma expressão religiosa de um fenômeno cultural contemporâneo. É o chamado pluralismo da religião. “A religião, como qualquer outro elemento da cultura, precisa se adaptar ao tempo. Isso é importante para o fortalecimento da crença. As igrejas tradicionais perdem fiéis porque não se adaptam às mudanças do tempo”, explica.

O fato de compartilharem da mesma fé e gostarem de rock’n roll, usarem roupas pretas e terem cabelos grandes foi um dos motivos que levou um grupo de jovens a criarem sua própria igreja: a Caverna de Adulão, que, desde 1992, funciona em Belo Horizonte. “A caverna surgiu da necessidade de se compartilhar a mensagem do evangelho com uma geração de jovens que era rejeitada nas igrejas oficiais por questões culturais”, explica o pastor Geraldo Luiz da Silva.

É entre os evangélicos que surgem as propostas de igrejas flexíveis. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma prancha de surfe virou púlpito para uma igreja descolada: a Bola de Neve, criada inicialmente para os surfistas. Em Fortaleza, há cerca de um ano, a Igreja Evangélica Congregacional desenvolve um projeto com alunos de jiu jitsu. No local, os jovens “Lutadores de Cristo” rezam, sobem no tatame para lutar e assistem à pregação do pastor.

“Essa foi a maneira que encontramos para alcançar os jovens que nunca entraram em uma igreja. Aqui pregamos a paz, e uma das nossas regras de conduta é não se envolver em brigas nas ruas”, diz o coordenador do projeto, lutador e seminarista Elder Pinto.

A diversidade de igrejas mostra que a religiosidade é nômade. “As igrejas que mais têm sucesso são aquelas receptivas, festivas, que não exigem uma exclusividade dos fiéis”, diz a antropóloga Léa Perez.

Caverna de Adulão
Bateria, baixo, tatuagens, piercings e muito amor a Deus

Cânticos em ritmo de rock, ao som de bateria e baixo, dão início ao culto na igreja Caverna de Adulão. Aos poucos, os jovens e casais com tatuagens no corpo, piercing no nariz e alargadores de orelha começam a chegar. Com uma linguagem informal, o pastor Magno Vieira começa a pregação do Evangelho. “É o maior barato a vida com Jesus. Sabemos que erramos, somos vacilões, mas estamos aqui para perdir perdão”, diz.

A reunião da comunidade cristã é realizada nas noites de quarta-feira e domingo na rua Aimorés, no bairro Funcionários, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Há 17 anos, o historiador e tatuador Giordano Augusto Toniolo, 29, se tornou um frequentador assíduo da Caverna de Adulão. “Eu me converti muito cedo, aos 8 anos de idade. Comecei a frequentar a caverna junto com meus irmãos, em 1992. Aqui, aprendi que o importante para Deus é o nosso interior, e não o visual que temos”, afirma.

Para Toniolo, o grande diferencial da comunidade é a simplicidade no relacionamento com o próximo, sem discriminação. “Todos são recebidos de braços abertos, desde skinheads até travestis”, ressalta.

Entre o público que frequenta a Caverna de Adulão, além dos adeptos do heavy metal, estão homens e mulheres sem o visual estereotipado. “Não estamos preocupados com costumes. As pessoas só precisam mudar seu coração e não o jeito de vestir para estar perto de Jesus”, diz o pastor Vieira. (HM)

Fonte: O Tempo

O VERBO

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