terça-feira, 14 de julho de 2009

“Acrianos” invocam até a Bíblia para permanecer “acreanos”

Grande número de políticos do estado e um calhamaço de 34 páginas reunindo muita história do Acre. É isso que o professor, gramático, filólogo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o pernambucano Evanildo Bechara, vai receber no , em agosto próximo, para dizer se é contra ou a favor da mudança do gentílico “acreano” para “acriano”, conforme propõe o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro deste ano.
Liderados pela deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), os políticos e membros dos poderes Executivo e Judiciário do estado, além de estudiosos e gramáticos, vão levar ao acadêmico Evanildo Bechara estudos elaborados pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e pela Academia Acreana de Letras (AAL) mostrando que não há por que mudar a grafia da naturalidade de quem nasce no Acre, hoje escrito “acreano”, para “acriano”. Além de diretor, o imortal Evanildo Bechara é responsável pelo setor de Lexicologia e Lexicografia da Academia Brasileira de Letras.
Repudiada desde o primeiro momento por todos os setores organizados da sociedade acriana, a mudança do gentílico “acreano”, por determinação do novo Acordo Ortográfico, deverá ser sacramentada até o dia 31 de dezembro de 2012, prazo final da fase de transição do acordo, firmado pelo com quase todos os países da língua portuguesa. Por quatro anos, o gentílico poderá continuar sendo escrito “acreano”, sendo opcional já escrever-se “acriano”, conforme prevê o novo acordo ortográfico.
Evocando razões históricas e a soberania de vocábulo “consagrado pelo uso há 129 anos e incorporado à tradição regional”, o documento elaborado pela Ufac, a pedido do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Edvaldo Magalhães, tem 15 páginas de argumentos que apelam até ao Novo Testamento, com a “Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios”, para o gentílico permanecer “acreano”.
Diz o argumento bíblico, a quem quiser ouvir, segundo a Ufac, os mistérios da existência, do verdadeiro valor a ser perseguido pelos homens de boa estirpe na sua incrível, maravilhosa e sempre nova aventura existencial: “... se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, mas não tiver amor, serei um bronze que soa ou um címbalo que tine; e se tiver o dom da profecia e conhecer todos os mistérios e toda a Ciência, e se tiver toda a fé, de modo a transportar montanhas, não tendo amor, nada serei...”.
No documento, a Ufac pede a Academia Brasileira de Letras, órgão encarregado da elaboração do novo Acordo Ortográfico, que consagre o uso da variante “acreano”, como sempre existiu ao longo dos anos, com registros nos dicionários mais renomados da Língua Portuguesa. Também pede que os acadêmicos brasileiros considerem que esse gentílico carrega consigo todo um legado de lutas, tradições e história. “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer, aqui no Acre, acreano, uma criação espontânea que, ao longo dos anos, consagrou-se pelo uso, muito embora possa contrariar alguma regra”.
Assinado pela reitora Olinda Batista Assmar, o documento da Ufac argumenta, ainda, que nenhuma regra é imutável no campo da linguagem. “E o próprio acordo ortográfico é recheado de exemplos, ora respeitando a tradição do português europeu, ora assegurando o cânone brasileiro. Esses arranjos todos estão ali para dizer que a língua, assim como a vida, quer palpitar, tornar-se flexível e colorida, expandir-se, enfim, viver”.

Um item da identidade do povo do Acre
Também consultado pelo presidente da Assembléia Legislativa, deputado Edvaldo Magalhães, a Academia Acreana de Letras (AAL) elaborou um estudo e uma resolução que serão entregues à Academia Brasileira de Letras no decorrer do próximo mês de agosto.
Assinado pelo presidente da AAL, professor Clodomir Monteiro da Silva, o estudo da academia assinala que a exclusão do gentílico “acreano” como forma escrita oficial do Novo Vocabulário da Língua Portuguesa foi além dos propósitos de unificação do acordo ortográfico, pois aduziu questões morfológicas e desconsiderou o processo cultural da formação do gentílico, desde sempre um item da identidade do povo do Acre.
A Academia do Acre defende que o gentílico “acreano”, pleno da história do topônimo “Acre”, formado com o sufixo “ano”, de registros em cartório, documentos oficiais, , artigos científicos, contos populares e folclore, é forma consagrada pelo uso regional há mais de 129 anos.
“Acreano está em dicionários respeitáveis do idioma pátrio, tais como Nascentes, Aulete, Aurélio e Houaiss, sustentando as duas formas, ou seja, duas variações – acreano e acriano. Mesmo assim, a população sempre elegeu acreano como a forma de denominar aquela pessoa nascida no Acre”, assinala o estudo da academia.
Segundo os destacados letrados do estado, “acreano” é legítimo patrimônio cultural, rico com signo e metáfora de sua formação multicultural e nas obras de seus artistas dos gestos, da fala, da escrita e da música.
“A Literatura Acreana auriverde, por mais de 70 anos, povoa as colunas de Patronos Fundadores e Sucessores da Academia Acreana de Letras, enriquecida nas barrancas e de lutas, forjada no coração e mãos curadoras, de um médico e poeta, Francisco Mangabeira, nordestino acreano na universalidade de sua arte, ao compor no Hino Acreano: ‘Que este a brilhar soberano, Sobre as matas que o vêem com amor, Encha o peito de cada acreano”.
Para a Academia Acreana de Letras, o antigo gentílico traduz a liberdade expressiva de uma comunidade e 129 anos de história. E que essa liberdade de escolha possui uma razão universal, que é a finalidade expressiva dos falantes acreanos, no uso de tradições e costumes.
“A importância de ser acreano se confunde com a própria importância do mundo em que se vive. Assim, mais que um ecossistema, região ou bioma, mais que a porção mais verdejante do planeta, o Acre é um . Ser acreano é uma epopéia brasileira. Sendo imperioso preservar as duas formas, a histórica e a lingüística, pois ambas são vertentes do conhecimento humano. A primeira tem maior possibilidade de retratar o Acre e sua gente, da forma mais completa possível, porque está plena, recheada da identidade regional”, assinala o estudo.
Os nobres letrados do estado ressaltam, ainda, que nenhum acordo pode toldar preceitos constitucionais que sustentam a construção da subjetividade, da identidade das gerações que estão construindo o patrimônio cultural, os bens de material e imaterial, com que foram construídas.
Por fim, os acadêmicos acrianos reafirmam sua posição de que o gentílico “acreano” é patrimônio brasileiro, bem de natureza imaterial, tornado individualmente e em conjunto, referencial da identidade constituinte e constituída de um povo que escolheu ser brasileiro e soube com trabalho, organização e dignidade conquistar a solidariedade e apoio dos brasileiros, nos momentos decisivos de sua história.

FONTE: Kaxia/NC

Um comentário:

  1. É claro que não abrirei mão do Gentílico Acreano. É nosso direito e vamos lutar para mantermos a nossa tradição. Nasci no Acre e sempre serei Acreano.

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